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Crítica - Filmes: Ameaça Profunda



Ripley submarina 


por Alexandre César

Terror submarino peca por ser demasiado genérico

Norah Price (Kristen Stewart): Tudo começou numa
 situação casual, cotidiana...

Fossas Marianas, 10.000 de profundidade. A engenheira mecânica Norah Price (Kristen Stewart da cine-série Crepúsculo, em visual andrógeno e dando o melhor de si para carregar o filme nas costas) está escovando os dentes num banheiro da instalação de uma companhia de prospecção mineral submarina. Logo ela repara gotas d´água vazando do teto e logo em seguida, após o que parece um terremoto devastador, rompe-se a vedação de um módulo, iniciando o colapso da estrutura, levando-a a fugir, e ajudar seus colegas de trabalho para que juntos, os sobreviventes possam encontrar uma saída daquele inferno silencioso, cuja pressão absurda e o frio extremo é morte certa para qualquer ser humano. Só que “alguma coisa” do lado externo, provocou aquela ruptura do complexo e está disposta a eliminar todo e qualquer humano...

A sala de controle, apesar das semelhanças, 
não é na Nostromo e nem na Sulaco...

Desde o primeiro trailer lançado meses atrás, já se percebia que Ameaça Profunda (2020) dirigido por William Eubank (O Sinal: Frequência do Medo de 2014) seria mais uma tentativa de se fazer uma versão submarina de Aliens – O Resgate de James Cameron, coisa já feita anteriormente em Leviatã (1989) de George Pan Cosmatos e Deep Star 6 de Sean S.Cunningham entre outros filmes B, de resultados bem piores ainda do que estes dois... O filme na realidade começou a ser rodado em 2017, tendo sofrido paradas e demorado a ser finalizado por conta dos trâmites decorrentes da compra da 20th Century Fox pela Walt Disney Company que deixou no limbo alguns projetos pendentes e cancelou outros.

 
Capitão Lucien (Vincent Casel), o mais próximo de 
autoridade nas circunstâncias...


O roteiro de Brian Duffield (A Babá) e Adam Cozad (A Lenda de Tarzã) a partir da história de Duffield trabalha em cima de quase todos os clichês do gênero, nesta premissa, digna de um videogame de sobrevivência em primeira pessoa, onde o grupo sobrevivente encara fases disfarçados de arcos narrativos para sair do oceano com vida, indo a cada etapa num crescendo de desafios, e dificuldades, seja pelos equipamentos defeituosos da explosão, ou pelos adversários marinhos mais difíceis, misteriosos, e mais ameaçadores tanto em quantidade quanto em tamanho.

Os trajes de mergulho de alta profundidade remetem aos trajes 
de astronauta de "Alien" (1979) de Ridley Scott...

 Além de Norah, que é a “Ripley”do grupo sobrevivente, temos Paul Abel (o polêmico T. J. Miller de Deadpool) o alívio cômico do grupo com suas tiradas pop ( como ele diz em certo momento: “- Por favor, que não venha nada como em 20.000 léguas submarinas...”), a assustada Emily (Jessica Henwick de Punho de Ferro) que se revela até bem aguerrida, o seu noivo Lee (Gunner Wrigh de J. Edgar), o Capitão Lucien (Vincent Cassel de O Pacto dos Lobos) que é o “Dallas da vez” (se você conhece Alien vai entender...), Liam Smith (John Gallagher Jr. de Rua Cloverfield, 10) e Rodrigo Nagenda (Mamoudou Athie de O Círculo). Não precisa dizer que boa parte do elenco perecerá ao longo de sua jornada.

Paul Abel (T.J. Miller) é o piadista do grupo, 
tentando controlar o pânico...

Eubank faz um filme bem sensorial, graças aos truques de câmera, cujo maior mérito é fazer o espectador sentir que está ali vivendo aqueles eventos catastróficos com os personagens, nesta ambientação claustrofóbica, onde o visual escuro e ao mesmo tempo marcante da fotografia de Bojan Bazelli (Esquadrão 6) trabalha bem os tons frios de cinza, azul, e verde oceano numa atmosfera ao mesmo tempo suja e artificial, auxiliado pela música de Marco Beltrami (Presságio) e de Brandon Roberts (A Mulher de Preto 2: O Anjo da Morte) é eficiente, trabalhando bem com os momentos de silêncio e optando por um toque atmosférico, sendo quase imperceptível.

Comida de monstro: À esquerda (de costas) o Cap.Lucien. 
Ao fundo, Emily (Jessica Henwick), Paul Abel e Norah. À direita,
 também de costas, Rodrigo Nagenda (Mamoudou Athie)...

Os valores de produção são de boa qualidade, destacando o desenho de produção de Naaman Marshall (Stuber: A Corrida Maluca), a direção de arte de Erik Osusky (Dunkirk) e Scott Plauche (Logan) e a decoração de sets de Karen Frick (Inimigos Públicos) criando espaços de aspecto tecnológico, aqui as instalações do conglomerado chinêsYuan que remetem às da Weyland-Yutani*com sua relação de largura bem maior que altura e formato octogonal (sempre que querem dar um aspecto “espacial”a um cenário, fazem os corredores e salas octogonais...) e os figurinos de Dorotka Sapinska (da série Penelope K, by the Way) são práticos, como um ambiente industrial pede, com seus escafandros de pressão profunda, similar a trajes de astronauta, e por dentro, colocando as meninas com tops e shortinhos de malha que valorizam a sua boa forma. Os efeitos visuais da Furious FX, Image Engine Design, Legacy Effects, Moving Picture Company (MPC) e Proof são competentes, e só.Tudo muito bem feito, mas tal qual o filme como um todo, sendo extremamente genérico e remetendo a outras obras que beberam na mesma fonte, coisa que Tentáculos(1998) de Stephen Sommers também tinha, mas sabia assumir e não se levar a sério.

Norah e o Capitão demonstram uma relação quase de pai e filha...

Apesar de seus defeitos, o grande mérito de Ameaça Profunda repousa na habilidade de Eubank em conseguir tornar um ambiente subaquático totalmente alienígena, traduzindo o silêncio e a solidão do vácuo do espaço, no vazio amedrontador do oceano e em vez de aliens, temos uma raça de criaturas misteriosas e extremamente perigosas, obra do conceptual designer Leandre Lagrange (Shazam!) evocando em algumas cenas além da Rainha Alien, por seu tamanho e aspecto ciclópico, Godzilla e o mítico Cthulhu de H.P.Lovecraft, sendo mais do que um filme de terror (ou meramente susto) por ser eficaz na construção de um suspense. Talvez com uma metragem menor, poderia ser um ótimo episódio de uma série de antologia tipo Além da Imaginação ou Black Mirror. Ao invés de mais uma tentativa e fazer Alien embaixo d´água...

"- Deixe ver: Estamos a mais de 10.000 metros de profundidade onde
 a pressão da água ultrapassa umas 50 toneladas por polegada. 
Será que este vazamento vai 'dar ruim'?"


* No universo da franquia Alien temos a corporação Weyland Company, que mais tarde, após uma fusão, tornou-se a Weyland-Yutani, uma empresa sinônimo de todas as práticas sórdidas de que o meio corporativo é capaz, como a Umbrella Company em Resident Evil ou a OCP em Robocop ou a Lexcorp nos quadrinhos da DC Comics.

Crítica: His Dark Materials/ Fronteiras do Universo - 1ª Temporada


"Desses negros embriões criar mais mundos"*

por Alexandre César


A obra de Philip Pulman finalmente é adaptada à altura 

 
O filme de 2007: Nem Nicole Kidman e Daniel Craig
 evitaram o fiasco de um roteiro fraco e genérico...


Recentemente sagrado Sir, Phillip Pulman, durante sua vida como professor de literatura em Oxford, concebeu uma história envolvendo elementos de fantasia, como feiticeiras, ursos polares falantes e daemons (representação da alma com forma de animal) empregando conceitos e ideias de uma ampla gama de campos, como a física, filosofia e a teologia numa obra direcionada ao público infanto-juvenil que não lhes subestima a inteligência ao instigar-lhe o gosto pelo debate e a discussão de idéias... fato que o faz ser considerado um dos 50 mais importantes autores ingleses pós-segunda guerra e conquistar uma legião de fãs que tal qual os seguidores de um certo bruxinho acompanham incansavelmente as suas narrativas fantásticas.


Lord Asriel leva a pequena Lyra para a Universidade 
Jordan invocando o "Santário Escolástico" para protegê-la...


His Dark Materials (no Brasil Fronteiras do Universo) é uma série literária de fantasia e ficção-científica compreende a trilogia formada pelos livros A Bússola Dourada (1995), A Faca Sutil (1997) e A Luneta Âmbar (2000). A série segue o amadurecimento de duas crianças, Lyra Belacqua e Will Parry, em sua jornada por uma série de universos paralelos com um pano de fundo de eventos épicos, parcialmente inspirada no poema Paraíso Perdido, de John Milton, a trilogia reinterpreta o tema da queda da humanidade, sendo alvo de controvérsia por conta de seus aspectos de crítica à religião. Jack Thorne (que adaptou o universo de Harry Potter para o teatro, num espetáculo de muito sucesso), produzida pelo canal britânico BBC One (Durante a produção da série, a HBO comprou os direitos de exibição internacional.) em parceria com a New Line Cinema e a Bad Wolf (ex-produtora de Doctor Who), filmado em Cardiff, no País de Gales, sendo os 2 primeiros episódios dirigidos por Tom Hooper (O Discurso do Rei, Cats).


10 anos depois a Levada Lyra Belaqua (Dafne Keen) e seu
 amigo Roger Paslow (Lewin Loyd) começam uma aventura...


A primeira temporada que compreende o primeiro livro A Bússola Dourada (filmado em 2007 de forma desastrosa por Chris Weitz com Nicole Kidman e Daniel Craig) é ambientada num mundo similar ao nosso, onde os seres humanos tem a sua alma fora do corpo, assumindo a forma física animal (o daemon) capaz de mudanças, fixando-se na puberdade numa forma animal definitiva.

O Dr. Carne (Clarke Peters) dá a Lyra um 
instrumento inestimável para a sua jornada...


Vemos o explorador Lorde Asriel (James McAvoy de Vidro) levar uma criança de colo (uma menina) chamada Lyra para ser criada na Universidade Jordan protegida pelo “Santuário Escolástico”, pois seria o único lugar em que ela estaria segura das maquinações do Magisterium, instituição toda-poderosa que controla assuntos científicos e religiosos (muitas vezes chamados de filosóficos) conforme seus interesses, sendo uma organização extremamente influente neste mundo, onde o conhecimento é controlado, tendo um visual bem anos 30 / 40 não faltando dirigíveis nos céus, a marca visual de universos paralelos nos seriados desde a 2ª temporada (2006) de Doctor Who e Fringe.

Lyra é "adotada" pela bela e letal Ms. Marisa Coulter
 (Ruth Wilson) que anseia moldá-la em algo "socialmente aceitável"...


 Asriel pesquisa o “Pó” partícula elementar (alegoria que se encaixa desde a essência humana, ao átomo) citada na Bíblia desse universo e tida como a razão do pecado pelo Magisterium, que procura censurar a sua pesquisa.


Olhe para os céus: Se houver um uso massivo de 
dirigíveis, você está numa realidade paralela..
Aliança sinistra: Lorde Boreal (Ariyon Bakare) e Ms. Coulter
 sabem o que querem e coitado de quem ficar no caminho dos dois...


Mais tarde, aos 10 anos, acompanhamos a jovem, despachada e destemida Lyra Belacqua (a ótima Dafne Keen de Logan) que ao ganha do acadêmico Dr. Carne (Clarke Peters de The Wire) o aletiômetro, um instrumento "medidor da verdade", ou seja, utilizado para responder qualquer pergunta, que possui 36 símbolos e quatro ponteiros (deve-se girar três ponteiros para apontar para três símbolos, formando uma pergunta, sendo o quarto ponteiro para apontar para outros símbolos, dando a resposta). 

O texano Lee Scoresby (Lin-Manuel Miranda) o intrépido 
aeronauta a procura de um "amigo urso"...
Lyra se use aos gípcios, liderados por "Pai" Jon Faa 
(Lucian Msamati) líder intrépido...

Procurando o seu amiguinho Roger Paslow (o ótimo Lewin Lloyd) raptado por um grupo que leva crianças para Svalbart, um campo de concentração no Polo Norte, sendo inicialmente nesta busca “adotada” pela bela e perigosa Ms. Marisa Coulter (a ótima Ruth Wilson de Luther, numa performance impressionante) membro do Magisterium, que na verdade é responsável pelos experimentos que pretendem separar as crianças de seus daemons para “livrá-las do pecado e manter a sua pureza” só que tornando-as indivíduos ocos, apáticos. (“ -Tudo pelo Bem Maior...” diriam os padres do Magisterium) mas a impetuosa garota foge e segue o seu rumo, unindo-se aos gípcios, povo errante, liderados por Pai John Faa (Lucian Msamati) tendo entre eles Mãe Costa (Anne-Marie Duff, tocante) cujo filho Billy (Tyler Howitt) foi vítima desse processo.


O aletiômetro, o "medidor de verdade", ferramenta que 
Lyra aprende a usar rapidamente...
O gípcio "Pai" Corran Van Texel (James Cosmo)
 orienta Lyra (e o seu "Daemon") quanto aos perigos da jornada...


Ao longo de sua jornada (refazendo os passos da Jornada do Herói de Joseph Campbell) ela fará aliados como Lee Scoresby (o músico Lin-Manuel Miranda, ganhador de 3 Tonys, 3 Grammys e 1 Emmy) o “Han Solo” do grupo, Serafina Pekkala (Ruta Gedmintas) Rainha das Bruxas do Norte, antigo amor do gípcio Pai Coram van Texel (James Cosmo de Game of Thrones) tendo os dois um dos mais tocantes ( e tristes) momentos da temporada, além do personagem mais marcante do livro: Iorek Byrnison, um Panzer Bjorn (urso falante de armadura) que tem de lutar para retomar o seu trono de Rei dos Ursos, tomado por Iofur Raknison, um urso cúmplice do Magisterium. O CGI dos ursos é muito bom, apesar de usado com economia.


Yorek Byrnison: O legítimo Rei dos Ursos,
 que só quer ser apenas um urso...


Separados pelo tempo: Serfina Pekkala (Ruta Gedmintas) e
 "Pai" Coram Van Texel viveram o amor no passado
 quando ele era jovem e tiveram um filho, que morreu...


Paralelo à trama principal, acompanhamos o sinistro Lorde Boreal (Ariyon Bakare) do Magisterium que usa uma passagem natural para o nosso universo, rondando Will Parry (Amir Wilson) filho de Elaine (Nina Sosanya) mulher mentalmente fragilizada e John Parry (Andrew Scott) explorador desaparecido numa expedição no Pólo Norte, surgindo aqui a inserção de personagens de A Faca Sutil, o segundo volume da saga, ficando aqui evidenciado a diferença entre os dois mundos, pois a tecnologia do mundo de Lyra é relativamente avançada, com o conhecimento da energia elétrica (energia anbárica) e o uso de veículos como carros, carroças e dirigíveis, cuja tecnologia é mais limitada em comparação à do mundo de Will, onde os carros são muito mais avançados e numerosos e já se usam os computadores e aviões.




Lee Soresby e Yorek Byrnison: Todo "Han Solo" 
tem o seu "Chewbacca"...


Os valores de produção são impecáveis, apesar de um orçamento um pouco menor do que os de outras superproduções americanas como Roma ou Game of Thrones mas com um ótimo uso dos recursos disponíveis, como o desenho de produção de Joel Collins (Black Mirror) e a direção de arte de Claudio Campana (Roma) e Jon Horsham (Rogue One: Uma História Star Wars) criam espaços vastos (de inspiração totalitária) e esmagadores da figura humana nas instalações do Magisterium, o impecável apartamento de Ms. Coulter, o palácio dos ursos e os espaços austeros e de estilo fabril do campo de concentração, e os figurinos de Caroline McCall (Downton Abey) que caracteriza a elegância fria de Coulter, os trajes funcionais e despojados dos gípcios, a impessoalidade e a mecanicidade dos membros e funcionários do Magisterium. A fotografia contou com bons colaboradores, destacando-se Joel Devlin (Broken), Justin Brown (The End of the F***ing World), David Higgs (Churchill), Ole Bratt Birkeland (Utopia), Suzie Lavelle (Vikings) e David Luther (Black Sails) que souberam alternar as cores mais quentes no ambiente dos gípcios (ressaltando o calor humano) e os tons frios e mais impessoais nos ambientes relacionados ao Magisterium. A música de Lorne Balfe (Esquadrão 6) com seu tom poderoso é marcante, cujos acordes sutis refletem a perspectiva subjetiva dos personagens e suas aspirações.


Will Parry (Amir Wilson) personagem do segundo
 livro, dá as caras na metade da temporada...
Lorde Boreal conhece uma passagem natural para o 
nosso universo, e o usa frequentemente...


O final impactante da temporada marca por sua coragem de ser fiel ao espírito da obra (coisa que o filme de 2007 não ousou...) não poupando os seus personagens, enfatizando o pensamento do autor de que crianças são seres inteligentes e fortes, merecendo ser tratados dessa forma pois só assim elas poderão se tornar adultos sadios e completos, capazes de encontrar o seu lugar neste ou em outros mundos...

O "veloz" balão de Lee: O controle que o "Magisterium"
 exerce sore o conhecimento provocou o descompasso
 tecnológico entre o mundo de Lyra, que parece ter 
parado nos anos 1940, e o nosso...


* :"His dark materials to create more Worlds" -O título da série, é uma citação do livro “Paraíso Perdido” de John Milton, mais especificamente o livro 2.



**: Philip Pulman anteriormente tinha proposto a série o nome do primeiro livro"The Golden Compasses" também tomado de Paraíso Perdido, onde ele se refere ao pó, como "compassos", com qual Deus moldou o mundo, uma ideia também retratada na pintura de William Blake, O Eterno, outra inspiração para a série.


Ano que vem tem mais, pois a primeira e a segunda
 temporada foram rodadas juntas!!!

Crítica - Séries:Watchmen 1ª Temporada



Valei-me negrada de meu avô!!!

 

por Alexandre César


Série da HBO revela-se uma grande e boa surpresa


Iain Glen (Dan Dreiberg) e Ray Stevenson (Rorschach) no teste
 da versão (cancelada) de 2003 de David Hayter. Vários
 diretores tentaram sem sucesso levar a história aos cinemas...



Incensada como a maior e melhor História em Quadrinhos do gênero Super-Heróis de toos os tempos,Watchmen, escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons foi divisor de águas ao longo de seus 12 números, desconstruindo o gênero numa premissa de como seria um mundo em que os heróis mascarados existissem no mundo real e qual o seu impacto na sociedade do ponto de vista cultural, legal, político, científico e ideológico. Neste universo alternativo o surgimento do Dr. Manhattan, um super-herói semi-divino levou os EUA a ganharem a Guerra do Vietnã (que acabou sendo anexado como o 51°estado) entre outras diferenciações históricas... 
 
A versão de Zack Snyder (2009) ainda que 
visualmente impecável dividiu opiniões...

Inúmeras obras de várias mídias beberam dela como fonte, de The Boys até Os Incríveis, mas nunca aprofundando tanto a discussão quanto o original. Após anos de várias tentativas de levar a obra para a tela grande coube a Zack Snyder (O Homem de Aço) dirigir a adaptação em 2009, que se do ponto de vista visual foi impecável na sua transposição e recriação dos personagens para o live action, muitos torceram o nariz para as mudanças do argumento de forma a ser mais inteligível para um público médio de cinema mais acostumado a blockbusters genéricos. O fato é que Snyder fêz a melhor adaptação possível de uma obra complexa para o formato filme, tanto que ele formou nestes dez anos uma nova geração de leitores, que não fosse o filme, provavelmente não se interessariam em conhecer a obra, permanecendo no gueto dos quadrinhos.

34 anos depois, Angela Abar (Regina King) é Sister Night,
 representante de uma nova geração de mascarados...

Agora, Damon Lindeloff (Lost, The Leftovers, Prometheus, Além da Escuridão: Star Trek) fã de carteirinha da obra, retoma este universo narrativo, tendo Dave Gibbons como consultor (Moore não quer ser creditado por estar “de mal” com a indústria das HQs de super-heróis) em Watchmen, a série da HBO ambientada cerca de 34 anos desde os eventos passados na HQ (a série segue a HQ original, e não o filme de Snyder) num resultado mais do que satisfatório complementando e recontextualizando a obra, dialogando com o momento político-social presente, de uma forma que o próprio Moore deveria engolir o orgulho e a atitude blasé e admitir que desse vez eles souberam fazer as coisas direito...

Espelhado/ / Looking Glass (Tim Blake Nelson) é basicamente o 
"herdeiro" do Rorschach original, no visual e na metodologia de trabalho...
 

Se a obra original se focava na paranoia da guerra nuclear, coisa natural pois era a guerra fria, com Estados Unidos e a União Soviética competindo para ver quem tinha o maior arsenal de mísseis balísticos de longo alcance, o foco desta sequência num 2019 alternativo é na questão do racismo crônico da sociedade (americana no particular) dialogando com este nosso momento em que a extrema direita chega ao poder em muitos países, apoiada por poderosos lobbys financeiros, religiosos e midiáticos, demonizando minorias, a intelectualidade, a arte e a cultura, num pesadelo orweliano* crescente.

Alem de Sister Night, outros policiais mascarados são Pirata Jenny
 (Jessica Camacho) e Red Scare / Terror Vermelho 
(Andrew Howard), pouco desenvolvidos na temporada.



O foco da trama é Angela Abar (Regina King) policial que mudou-se do Vietnã com o marido Carl (Yahya Abdul-Mateen II) para Tulsa e após os eventos da “Noite Branca” quando um grupo supremacista (7ª Kavalaria) mataram vários menbros da força policial, quando o Senador Joe Keane (James Wolk) institui que os policiais passem a usar máscaras para preservar as suas identidades (coisa em oposição ao ato de seu pai de 1977 que criminalizava os vigilantes mascarados) e assim ela assume a identidade de Sister Night, uma vigilante similar a um certo “homem-morcego” bem conhecido. 


A maneira criativa com que sempre era tratado o logo da série em 
cada episódio rivaliza com "The Umbrella Academy" da Netflix...

Após três anos de paz, a Kavalaria volta a dar as caras, e após alguns confrontos Angela investiga o assassinato de seu superior e amigo Chefe Judd Crawford (Don Johnson) e a partir daí vão se avolumando descobertas, reviravoltas e idiossincrasias desse 2019 alternativo que tem grandes avanços tecnológicos no campo da engenharia genética, mas não tem internet e telefones celulares, entre outras diferenças.



Finalmente vimos o estrago que a lula gigante transdimensional
 fake (omitida no filme de 2009) causou em Nova York...

Personagens clássicos da obra original são citados, ou aparecem agora mais velhos como Laurie Blake (Jean Smart) a Spectral, agora uma sarcástica agente do FBI, Adrian Veidt (Jeremy Irons) o Ozymandias, exilado numa “utopia” criada Pelo Dr. Manhattan, um ser de poderes semi-divinos, e temos momentos clássicos do quadrinho original como a fatídica noite de 02 de novembro 1985 quando o relógio do Juízo Final apontava para meia hora antes da meia-noite e pouco depois a famigerada lula gigante transdimensional cai em Nova York matando 3 milhões de pessoas e traumatizando psiquicamente outras centenas de milhares, mas que preveniu a inevitável guerra nuclear, de acordo com o plano de Veidt, bem como os preparativos deste plano, quando ele pré gravou uma mensagem para o futuro presidente Robert Redford (uma brincadeira com o presidente da época em que o quadrinho foi lançado, Ronald Reagan, também ator).


O asassinato do Chefe Judd Crawford (Don Johnson) 
é o estopim da trama, similar à morte do Comediante na HQ...


Dialogando com o momento atual, temos a reconstituição do Massacre de Tulsa** em 1921, dado que até cerca de 15 anos atrás não figurava nos livros de história, e mais adiante num incrível episódio passado em 1938 (ano do lançamento de Action Comics nº 1 com a estréia do Superman) vemos os ancestrais do gupo, os Minutemen e o membro fundador Hooded Justice, bem como a origem da 7ª Kavalaria, na verdade uma atualização de um braço da Ku Klux Klan chamada Cyclops cujos planos são bem preocupantes...


Laurie Blake (Jean Smart) a Spectral, agora agente
 do FBI, roubou a cena em diversos momentos...

Além dos personagens clássicos, novos rostos como Wade Tillman / Looking Glass (Tim Blake Nelson) cujo layout remete ao Rorschach original e a cientista trilionária Lady Trieu (Hong Chau) enriquecem a narrativa e ilustram vários aspectos deste mundo peculiar.



A SERIE DENTRO DA SÉRIE "American Hero Story" mostrou
 como funciona a prática do "whitewashing"...

 O roteiro da série, tendo Lindeloff como chefe da equipe, além de showrunner, montou arcos que foram escrupulosamente seguidos, lançando perguntas que foram sendo respondidas gradativamente a partir da segunda metade, não deixando nenhuma ideia ”largada”, salvo aquelas que ficaram propositadamente em aberto, visando uma possível temporada seguinte, da mesma forma que a metalinguagem é explorada nos trechos dos episódios de American Hero Story, série de TV focada nas origens dos heróis mascarados, notadamente em “Hooded Justice”, o precursor de todo o movimento, que aqui serve para se discutir coisas como o withewashing***




Ms Crokshanks (Sara Vickers) e Mr. Phillips (Tom Mison) 
compartilharam com Adrian Veidt (Jeremy Irons) alguns dos 
momentos mais insólitos da temporada...



A direção de atores foi precisa, tirando interpretações memoráveis do elenco afiado defendendo os seus personagens, com destaque para King, Smart, Hong Chau e Jolie Hoang-Rapapport do lado feminino e Irons, Nelson, Yahya Abdul-Mateen II e Louis Gosset Jr. como Will Reaves, o velho e sofrido avô de Angela de participação crucial na trama, e não podemos deixar de citar os clones, tendo Tom Mison (Sleep Hollow) como Mr. Phillips e o Guarda-Caças e Sara Vickers e Christie Amery como Ms. Crookshanks e a sua matriz, Erika Manson, que renderam momentos inusitados e surreais com Jeremy Irons, fora o tom mauricinho de James Wolk como o Senador Joe Keane e o Fanboy Agente Petey (Dustin Ingran) que assume um papel de sidekick de Laurie Blake na sua investigação.

A misteriosa trilionária Lady Trieu (Hong Chau) revela 
conhecer muito da história de Angela para surpresa dela...


Os valores de produção foram impecáveis, fazendo a fotografia um uso inteligente tanto da cor, como do preto e branco, como no episódio calcado nas origens de Hooded Justice, um perfeito episódio noir. Trabalhando em conjunto com uma edição que dava o tom certo à narrativa,sem estender ou, cortar as cenas antes de sua necessidade de conclusão. O desenho de produção, a direção de arte e os figurinos acertaram em cheio ao recriar os trajes dos mascarados da década de 1930, bem como caracterizar esse universo ficcional em que cada enquadramento revela num canto de cenário, um utensílio ou objeto na mesa, etc... algo do passado dos personagens ou alguma citação ao pasado destes ou referências cruzadas a elementos do universo Pop ou da narrativa da obra original. Cada centavo foi bem gasto, como o mostra a sequência da Lula-gigante em Hoboken (omitida do filme de Snyder) fora a música de Trent Reznor e Atticus Ross, cuja seleção de clássicos permeia a narrativa, sublinhando-a e acrescentando detalhes de forma sutil.

Veidt e Trieu compartilham um elo inesperado...

No cômputo geral Watchmen honrou o legado de Moore e Gibbons e atualizou-o de forma inteligente e sagaz, fechando a temporada de forma auto-contida mas permitindo expansões futuras para qualquer explorador audacioso que queira se aventurar neste rico universo narrativo onde super-deuses azuis coabitam a terra com homens-lubrificantes...

O episódio ambientado em 1938 mostra os 
"Minutemen", os precursores dos grupos mascarados...

* : relativo a George Orwell (1903-1950), pseudônimo do escritor britânico Eric Arthur Blair (1903-1950), à sua obra ou à visão distópica de um futuro totalitário exposta no seu livro “1984”.

** : O distrito de Greenwood em Tulsa, chamado de “A Wall Street Negra” foi alvo entre 31 de maio e 1°de junho de 1921 de um ataque brutal por parte da população branca local, incluídos aí vários membros da Ku Klux Klan, grupo supremacista de notória tradição de linchamentos e perseguição a população negra. Foram cerca de dois dias de fuzilamentos, incêndios e até bombardeios aéreos, destruiu cerca de 35 quarteirões do distrito (outrora a mais rica comunidade negra nos Estados Unidos) com mais de 800 pessoas foram internadas em hospitais e mais de 6.000 residentes negros foram presos e detidos, muitos por vários diaspois não era concebível a ideia de um município de população negra economicamente próspero e crescente.


*** : A prática da narrativa oficial se apropriar da história, transformando personagens não-brancos, em caucasianos, distorcendo-a e oficializando o seu discurso.


"Isto Sr, Phillips!!! Para o alto e avante! Sempre! Este é o espírito!!!"



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