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Crítica - Filmes: Kursk – A Última Missão


Lágrimas no Fundo do Mar...

 

por  Alexandre César 


Bom e morno drama de uma tragédia anunciada

 

 

Com a História não há spoiler. Logo, o relato do acidente do submarino nuclear russo K-141 Kursk, um submarino da classe Oscar II, carregando mísseis balísticos, que afundou no Mar de Barents em agosto de 2000, e que não deixou sobreviventes não poderia dar um drama de sobrevivência hollywoodiano. À medida que os 23 marinheiros remanescentes do acidente inicial lutam pela sobrevivência dentro da embarcação, em terra, as suas famílias desesperadas lutam com obstáculos burocráticos e as probabilidades assustadoras quanto ao destino de seus entes queridos, num quadro cada vez mais negro, constatamos que jamais veremos Michael Bay ou seus colegas de blockbusters encararem empreitada deste tipo.


União: O paizão Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts)
 e o filho Misha (Artemiy Spiridonov).



Dirigido pelo dinamarqês Thomas Vinterberg (A Caça de 2012 e Longe Deste Insensato Mundo de 2015) Kursk - A Última Missão(2018) é uma produção franco- belga, filmada na Romênia, Bélgica Noruega e França que tendo entre outros nomes Luc Besson (Anna - O Perigo Tem Nome) como um dos produtores executivos, e lida com um relato que já sabemos de antemão qual será o final, sendo o desafio real, dar um enfoque especial a esta narrativa. Se não é o filme de ação esperado, paciência, pois a vida tem um ritmo e caminhar próprio diferente das nossas aspirações.

Mikhail e sua esposa Tanya (Léa Seydoux): a beleza
 da gravidez numa interpretação sólida...


O roteiro de Robert Rodat (O Resgate do Soldado Ryan) e Robert Moore, baseado no seu livro ”A Time to Die” situa historicamente a trama naquele período em que, extinta a União Soviética, e naquele período de limbo em que a recém-fundada Federação Russa, liderada por um iniciante Vladmir Putin estava econômica e militarmente estagnada, tendo que lidar com boa parte de seu antigo arsenal se deteriorando por falta de condições materiais e sendo pressionada pelo ocidente, como em certa altura diz amargo, o Alm. Vyacheslav Grudzinsky (Peter Simonischek de O Intérprete) : “- Há 20 anos tínhamos três vezes mais navios neste exercício... Agora, a maior parte da frota está parada enferrujando...” sabendo que os marinheiros (orgulhosos de sua tradição) tinham que lidar com baixos (e atrasados) salários além de falta de equipamento e peças de reposição, que os forçavam naquela época à canibalização de peças de uma embarcação para outras.

Mikhail Tanya são os padrinhos do casamento de Pavel Sonin
 (Matthias Schweghofer) e de Daria (Katrine Greis-Rosenthal)
 numa cerimônia aconchegante.

O mais trágico exemplo deste quadro é que o melhor submarino de resgate havia sido vendido, convertido para milionários verem no fundo do mar os destroços do naufrágio do Titanic, e restando à Frota do Norte, um modelo obsoleto, cujo anel de atracação não conseguia fazer a vedação necessária para possibilitar o resgate, com consequências funestas...

O Alm.Vyacheslav Grudzinsky (Peter Simonischek à direita de costas)
 sabe que a frota não é mais a mesma...

Grudzinsky pressente que nestas condições,
 a Frota do Norte está a beira de um desastre...

Vinterberg faz a clara escolha de focar-se mais no lado emocional e humano da tragédia, do que do lado político, resultando num forte drama que dá mais importância às suas vítimas (e esposas) do que do submarino propriamente dito, que aqui não chega a ser um personagem, como por exemplo em outros filmes de tragédias, como o transatlântico Titanic ou o dirigível Hindenburg. A despersonalização do submarino serve para se evidenciar a situação de indivíduos presos numa situação em que o cálculo político (a demora do governo russo em admitir precisar de ajuda externa, pela humilhação da situação que vivia, além do temor de no resgate, ter segredos estratégicos revelados) se sobrepõe às vidas envolvidas.
 
Mikhail no dia seguinte embarca no Kursk para 
mais uma missão de rotina...
Pavel se preocupa com um torpedo que 
estava se superaquecendo.

Assim acompanhamos o capitão-tenente Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts de A Garota Dinamarquesa) e sua esposa Tanya (Léa Seydoux de Azul é a Cor Mais Quente) grávida do segundo filho e seu rebento Misha (o ótimo Artemiy Spiridonov). Mikhail, como os seus amigos mais chegados são submarinistas embarcados no Kursk, que irá sair num exercício da Frota Russa, sendo que no início acompanhamos os preparativos do casamento do oficial Pavel Sonin (Matthias Schweghofer de Der geilste Tag) com Daria (Katrine Greis-Rosenthal de Um Homem de Sorte) onde os colegas, entre eles o divertido Oleg Lebedev (Magnus Millang de A Comunidade) fazem um rateio, vendendo os seus relógios de pulso (Um relógio de submarinista é um ítem de grande valor) para conseguir as bebidas para a festa, em virtude dos salários atrasados. Nesta cena a musica de Alexandre Desplat (Ilha dos Cachorros) usa acordes de balalaika, situando musical e sentimentalmente aqueles homens casados com suas famílias e com o mar, o misterioso mar...
 
A profundidade onde o Kursk estava nem era tão grande assim, 
mas o péssimo estado do equipamento de resgate inviabilizava tudo...
 
O Comodoro David Russel (Colin Firth) oferece
 ajuda à marinha russa...

Logo que acontece o acidente quando um torpedo defeituoso explode, detonando os outros e destruindo a proa do submarino, matando Pavel entre outros, levando Anton Markov (August Diehl de Bastardos Inglórios) a lacrar o reator por dentro, sacrificando-se, e ficando os 23 sobreviventes numa espera excruciante, cabendo a Mikhail e a Oleg manter o moral, controlando o pânico de Leo (Joel Basman de Terra de Minas), o desespero de Maxim (Pit Bukowski de O Bunker) que surta em certo momento e os demais marujos.

Mikhail (deitado) e Sasha (Kristof Coenen ) por pouco 
não se afogam num momento dramático...
 
Cabe a Tanya e as esposas dos tripulantes cobrarem 
uma atitude das autoridades que não querem
 adimtir sua incapacidade..

Do lado de fora, o Comodoro da Royal Navy David Russel (Colin Firth de Somente o Mar Sabe) detecta o problema e agindo em conjunto com Grudzinsky, procura agilizar o resgate, esbarrando na oposição pétrea do Almirante Vladmir Petrenko (Max von Sydow de Flash Gordon) homem forte da marinha que se opõe à dar acesso a qualquer um de fora que possa implicar numa quebra de segredos de estado, o que acaba atrasando o resgate de forma fatal... Temos ainda no elenco uma pequena participação de Michael Nyqvist (John Wick: De Volta ao Jogo e da série de TV sueca Millennium) em sua derradeira atuação, tendo morrido logo em seguida de câncer.

Tristeza: Russel e Grudzinsky comparecem ao 
funeral dos tripulantes com um gosto amargo na boca...

A fotografia de Anthony Dod Mantle (Quem Quer Ser um Milionário) alterna cores mais intensas nas locações externas em contraste com os tons mais contrastados do interior do submarino naufragado, gradualmente aumentando os cinzas e azuis a medida que o tempo vai
passando em seu interior, e a água vai subindo caracterizando o frio sepulcral, tornando o ritmo lento mas expressando a agonia dessa situação-limite.

 
A diferença de tamanho dos submarinos da classe Oscar
 em comparação com os da classe Ohio americana. Grande,
 mas ainda menor dos que os Typhon russos...

A edição de Valdis Óskarsdóttir (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças) vai pontuando o ritmo intenso das tentativas de resgate, ou os momentos mais angustiantes como quando Milhail e Sasha (Kristof Coenen de Professor T.) nadam num compartimento inundado para recuperarem cartuchos de filtragem do equipamento de ar, ou o arrastar da negociação entre as autoridades e o crescendo de desespero dos familiares dos tripulantes, liderados por Tanya, Daria, Vera Markov, esposa de Anton (Helene Reingaard Neumann de A Comunidade) e Oksana, a mãe de um dos tripulantes (Pernila August de StarWars episódios I e II).

Tanya e Misha tem de seguir com suas vidas, 
carregando as lembranças de Mikhail...

O desenho de produção de Thierry Flamand (da versão francesa de A Bela e a Fera de 2014) aliada a direção de arte de Virginie Hernvann (Submersão) Simon Weisse e Gladys Garot e a decoração de sets de Lieven Baes (Promessa ao Amanhecer) e Pascalle Willame (O Novíssimo Testamento) ao inicialmente usar de filmagem num submarino real, para logo depois ndo acidente, definir o espaço como claustrofóbico e frio (apesar de ainda serem maiores do que a média desse tipo de embarcação) contrastando com os espaços pequenos, simples e aconchegantes do apartamento do casal Averin e as instalações do clube dos oficiais, já deteriorado pelo tempo mas ainda ostentando as glórias passadas da URSS, bem como os conjuntos habitacionais padronizados de concreto, lembrando os dos nosso antigos IAPC e BNH (filmados na cidade de Vulcan, no condado de Hunedoara, Romênia) complementado pelos figurinos de Catherine Marchand (Marina) que define bem a realidade social sem muita sofisticação destas pessoas simples, cujos trabalhos exigem um alto nível técnico em contraste com sua origens proletárias.


Ao final a reprovação do olhar de uma criança e a 
sua recusa em aceitar desculpas são mais contundentes
 do que um discurso contra os responsáveis...


As condições de vida em submarinos russos/ soviéticos acidentados é um tema já abordado em filmes como o ótimo K-19 The Widow Maker (2002) de Kathryn Bigelow e   Phantom – A Última Missão (2013) de Todd Robinson e é claro que somente as trágicas missões é que acabam ganhando espaço justamente pelo seu teor dramático, fora as implicações de crítica política, Ao final, embora não seja o melhor filme do diretor, Kursk: A Última Missão é correto ao mostrar a relação entre pessoas, o tempo que temos de vida (que nunca sabemos quanto temos...) e o choque entre a urgência da vida e as conveniências das autoridades.

 
Trágico: O casco do Kursk numa doca seca revelando
 a extensão da explosão na sala de torpedos, que destruiu a proa.

 

Crítica: O Vizinho - 1ª Temporada




Super-Chavez Colorado

 


por Alexandre César


Série espanhola mescla heroísmo e trapalhadas

 


Sitcom de heróis, num ambiente comum, ordinário...

 

Javier (Quim Gutiérrez de Vale) é um cara de mais de trinta anos que não sabe lidar com as obrigações e os relacionamentos da vida adulta. Trabalhando (e “morcegando” sempre que pode) num bar de Madri, tenta vender para a clientela as camisetas que faz, e que ninguém compra, e vai levando na meia-boca o relacionamento com sua namorada Lola (Clara Lago de O Passageiro) que tenta emplacar reportagens (sem muito sucesso) numa revista on-line, cuja principal fonte de publicidade são as casas de apostas que proliferam em cada esquina da cidade.


Nos quadrinhos a influência de Jack Kirby (esquerda e direita)
 se faz presente no traço e caracterização do herói (centro), 
coisa bem diferente da série...

Aproveitando que Adolfo (Aníbal Gómez de Torrente 5) o seu patrão pagou por um final de semana que não poderá ir numa casa e campo, e do qual não poderá pegar o dinheiro de volta, Javier leva Lola para fazer “uma média” e se mostrar atencioso, mas o lugar é um muquifo e os dois preferem dormir do lado de fora, e nisso presenciam a queda do que parece ser um cometa, que ao bater no solo, os derruba, revelando um alienígena moribundo (Jorge Sanz de Conan, o Bárbaro) que no melhor estilo Lanterna Verde, dá seus poderes e uniforme para o humano disponível mais próximo: Javier no intuito de que este use-os com sabedoria para proteger o universo.


Javier (QuiM Gutiérrez) o "Sem-Noção" escolhido pelas circunstâncias...


Lola (Clara Lago) e Javier: As idas e vindas do amor...

Criada por Miguel Esteban (Locomundo), Raúl Navarro (El Intermedio) baseada nos quadrinhos de Santiago Garcia e Pepo Pérez (El hombre Esponja) e dirigida (entre outros) por Nacho Vigalondo (Colossal) O Vizinho é a nova aposta da Netflix, que aliando a comédia no melhor estilo Almodóvar à uma divertida crônica de costumes dos habitantes de um prédio de padrão popular suburbano em Madri com certeza agradará ao público brasileiro dadas as similaridades com a nossa realidade cotidiana.


Ação e resultado: A primeira tentativa de Vôo...



José Ramon (Adrián Pino) e Javier: O "sidekick" e o herói trapalhão...

Javier, desconsolado por Lola ter rompido com ele, tenta aprender a ser herói da forma mais estúpida e atrapalhada possível, contando coma ajuda de José Ramon (Adrián Pino de Ikaro) um tímido estudante vindo do interior para se preparar para um concurso público, para ser Juiz, alugando um quarto do apartamento de Julia (Catalina Sopelana de Matadero) a amiga “maluquinha” de Lola, que a ajuda a tentar fazer uma matéria e acidentalmente registram num post de celular o vôo do atrapalhado herói, que se auto intitula”Titâ”, conseguindo milhares de visualizações e vê nesta história a oportunidade de crescer profissionalmente, tentando descobrir quem é o “herói”.


Lola e Julia (Catalina Scopelano) a amiga "maluquinha" de bom coração...


Rober (Sergio Momo) o "rival" de Javier pela atenção de Lola...

Mais informações sobre a trama são desnecessárias uma vez que a estrutura narrativa, de comédia sitcon, com o tempero próprio da latinidade ibérica se impõe e traduz no ritmo ágil da narrativa despretensiosa e vocações grandiosas tipicamente norte-americanas, que se reflete em seus personagens, como Rober (Sergio Momo de Rescue Under Fire) o “colega” de Lola na revista com quem ela “dá uns pegas”, Camello (Denis Gómez de Amor sacro) o junkie do prédio que cria a sua própria erva, Alícia (Paula Malia de Cites) noiva de José Ramon, reprimida e louca para liberar a sua sexualidade ou Marcelo (Nacho Marraco de O Ministério do Tempo) antigo professor de Julia que junto com ela funda a “policia do karma” tentando de forma patética corrigir as injustiças cotidianas.


Alícia (Paula Malia) e José Ramon: Noivos; ele nervoso, ela neurótica...

Lola, Julia e Marcelo (Nacho Marraco): A "Polícia do Karma"...

A inexistência de um vilão de fato serve pera mostrar o quão inútil é Javier, ou melhor, “Titâ”como herói, cujo figurino de Rosa Solano (La Casa de Papel) não deixa dúvida com seu aspecto mezo “Power Ranger”, mezo “Chapolin Colorado”, da mesma forma como as roupas sem estilo de José o desqualificam como sidekick, ou qualquer outro dos personagens que tem um visual cotidiano de segunda mão...


O mais parecido com um "vilão" que aparece na 
temporada é um mero dono de Casas de Apostas...


Alícia, José Ramon e "Rodinhas" o cachorro paralítico, 
a lembrança para Javier que "Grandes poderes..."

O desenho de produção e a direção de arte de Javier Alvarino (Enquanto Você Dorme) reflete no espaço do prédio e suas imediações um mundo suburbano com cores vivas mas nada excessivamente berrante que a fotografia de Jon D. Domínguez (Perseguição Virtual) David Valldepérez (El árbol) e Miquel Prohens (El Ano De La Plaga) registra de a vida cotidiana deste universo de pessoas simples e ordinárias que a edição de Santi Alvarado Sagué (Dangerous Mons) Ibon Zulueta (El ritmo em sus venas) e Carolina Martínez Urbina (Regressão) enfatiza o seu ritmo rápido, ligeiro, mas sem estilismos artificiais, indo a música de Pablo Parser e Jamie Summer na mesma direção.


Lola em pouco tempo percebe que o "Herói" não tem objetivo nenhum...

Ao final, após o deslumbre inicial Javier quer mais voltar a ser um cara comum,e Lola quer descobrir quem é o homem voador, e logo após a sua primeira entrevista descobre que o “super-herói“ é um tolo sem-noção, questionando a sua competência para o este papel, abrindo possibilidades para a nova temporada, que caso ocorra, obrigará Javier a crescer, ou jogar a toalha, mas aí perderemos a graça de ver as suas trapalhadas.


"- Oi! Vista bonita não???"



Crítica - Séries: Perdidos no Espaço - 2ª Temporada


Crescendo e aparecendo

 

 

por Alexandre César


Temporada supera expectativas e aponta novos rumos

 

Passados sete meses encalhados num belo
 planeta de atmosfera tóxica...

 

Como exemplo de programa para toda a família, neste Natal de 2019 a Netflix disponibilizou a 2ª temporada de Perdidos no Espaço, que aqui, cresce e aparece após o teste de fogo da 1ª temporada (que dividiu opiniões apesar do sucesso) fincando de vez os seus pés não só na série original de 1965 criada pelo lendário Irwin Allen como se lançando na estrutura narrativa atual, não negando seus vínculos com ArquivoX e Lost, sendo dinâmica, divertida e até audaciosa do seu jeito próprio.


Don West (Ignacio Serricchio) no fundo agora 
se sente um "Robinson"...


Após o final acelerado da temporada anterior, avançamos sete meses no futuro, onde encontramos a Júpiter 2 pousada na praia de um planeta com um vasto oceano e uma atmosfera tóxica (em incríveis locações na Islândia), e os Robinsons criaram uma estufa para cultivar alimento, usando plástico, fita silver tape e módulos de armação no melhor estilo do filme Perdido em Marte (2015) de Ridley Scott, mas aqui atualizando o conceito do jardim hidropônico, que na série clássica eram umas ridículas mesas de alumínio com umas plantinhas miúdas, e que nunca convenceram como fonte produtora de alimentos...


Morra de inveja Kevin Costner...


A travessia marítima remonta a um episódio da 
série clássica de 1965...


Encontramos o dilema entre o casal Maureen (Molly Parker) e John Robinson (Toby Stephens) pois ela já determinou os ciclos das tempestades elétricas do planeta e inspirada nos experimentos de Benjamin Franklin bolou uma forma de captar os raios para fazer uma “ligação direta” nos motores da nave e dara partida para saírem do planeta. Ele, mais cauteloso acha que devem esperar mais pois já estão numa situação estável, conseguindo reciclar a água, o ar e tendo comida.

Os jovens Robinsons: Will (Maxwell Jenkins), Judy (Taylor Russel)
 e Penny (Mina Sunwall). União à toda prova.


John Robinson (Toby Stephens) e a pequena Judy 
(Ella SimoneTabu): Laços de amor e não de sangue 
que fazem realmente uma família...


Ela, como toda mãe, percebe que aquele quadro estável na verdade caminha para a estagnação e se eles não fizerem logo, perderão a janela do ciclo de tempestades e terão de esperar mais um ano, o que será desgastante para os jovens Judy (Taylor Russel), Penny (Mina Sunwall) e Will Robinson (Maxwell Jenkins, que esticou). Um providencial acidente rompendo a estufa e reduzindo a reserva de alimentos os força a usar de criatividade, transformando a nave num catamarã e rumando para o auto mar para atrair os raios, tendo aqui sequências espetaculares que resgatam momentos da série clássica e lembrando o mundo aquático de Interestelar (2014) de Christopher Nolan, dando inclusive espaço para que a (até o momento confinada) “Dra.” Smith (Parker Posey) mostre os seus talentos como navegadora, numa sequência de grande impacto, valorizada pela música de Christopher Lennertz (The Boys). Após superar este problema de quebra descobrir pistas sobre as origens do Robô (Brian Steele, muito mais expressivo) os Robinsons reencontram a Resolute, sua nave-mãe que estava orbitando um mundo vizinho. Isto só no episódio inicial...

Família: Judy, Will, Penny, Maureen (Molly Parker) e 
John Robinson se preparam para o "Ou vai ou Racha"...


Aqui os showrunners Matt Sazama, Burk Sharpless (Deuses do Egito de 2016, Power Rangers de 2017) ao vincular os Robinsons aos outros colonos fizeram a grande ruptura com a série clássica original e conseguiram dar perfil diferenciado a esta versão, afinal o título original em inglês é Lost in Space e poderíamos dizer que a narrativa dos percalços dos colonos de Alpha Centauri vai caminhando para se tornar (no bom sentido até agora) um LOST ... in space” pois a interação do núcleo central de personagens, de forma semelhante aos sobreviventes do vôo da Oceanic 815 se dá com humanos como eles, pois não ficaria convincente no contexto da série o mesmo esquema de atores convidados usando máscaras de borracha ou papier-maché ou então, pintados de dourado ou prata como nos anos 1960.

OS Robeinsons e a Dra. Smith (Parker Posey) 
"navegam por mares nunca dantes navegados"...
Descobre-se uma misteriosa estrutura, que provoca as 
tempestades elétricas, que se relaciona às 
origens do "povo" do Robô...

As dinâmicas entre os personagens amadureceu, tendo destaque a de John com Judy, que é filha do primeiro casamento de Maureen, e é legal ver o amor e o acolhimento de um homem que torna sua filha, uma criança que não é biologicamente sua, criando uma laço afetivo que é tão forte quanto um de sangue, mostrando que meios-irmãos que se amam são irmãos inteiros. Vemos Maureen se tornar uma líder incontestável, e John, um colaborador fiel para qualquer circunstância, sem por isso se ver diminuído em sua masculinidade, enquanto Don West (Ignacio Serricchio) não se sente mais um “desgarrado” mostrando um vínculo de afeto e lealdade inquebrantável para a família que o acolheu e vice-versa.

Ligação direta: Após encalhar num local apropriado, é 
só esperar a descarga elétrica que acionará os motores...

 West inclusive serve de guia para mostrar a diferença de classe social existente dentro da Resolute entre os colonos e tripulantes (a elite) e os mecânicos e técnicos que fazem as atividades cotidianas da nave acontecerem, pois estes só podem se estabelecer na colônia de Alpha Centauri após cada um fazer 10 viagens de ida e volta da Terra até lá. Existe uma luta de classes no espaço, como em qualquer lugar para o qual o homem vá...

Os Rbinsons reencontram a Resolute, a nave-mãe 
dos colonos, tão perdida quanto eles...

Hastings (Douglas Hodge) o intragável "Perigo Real e Imediato"...

 Will após muitos percursos reencontra o Robô, que vai amadurecendo a relação ao questionar a amizade como uma via de mão dupla ao mostrar que os animais também tem direito a um tratamento digno enão só uma posição de submissão, levando o cientista da nave Ben Adler (JJ Feild de Centurião) repensar a forma que lidou com o “espantalho”, um outro robô danificado, usado como navegador da nave, repetindo o papel de exploração que vimos na 1ª temporada de Star Trek: Discovery quanto ao tardígrado e o motor de esporos. Adler se reconhece em Will e se redime, deixando de seguir as diretrizes de Hastings (Douglas Hodge de Operação Red Sparrow) o real vilão da temporada, um burocrata que não aceitará ter a sua posição questionada, usando de métodos sujos para não perder o poder tentando mais de uma vez descartar os Robinsons, que revelam-se duros na queda.

Não faltam sequências espaciais sensacionais, como 
quando Maureen comanda a Resolute dentro da
 atmosfera de um planeta gasoso...

Ben Adler (JJ Feild):Uma versão adulta de Will que 
revê as suas posições graças ao jovem Robinson...

Penny se revela a grande surpresa da temporada, ao encontrar o seu lugar no mundo das decisões, pois como todo filho do meio, se sentia perdida entre a liderança de Judy e o intelecto e a engenhosidade de Will, aqui, além de tomar para si a função de escrever as aventuras da família e, desenvolve inicialmente com Smith uma relação quase que de “mestre-aprendiz” (similar a que havia na série clássica entre Will e Smith) e descobre o dom de induzir as pessoas a fazerem coisas, como com o seu crush Vijay (Ajay Friese de Riverdale) filho de Victor Dhar (Raza Jaffrey de Homeland) o líder dos colonos, que tem uma dificuldade grande de lhe dizer não. Penny consegue inclusive num momento crucial, fazer com que a Dra. Smith faça o bem, e goste de atuar de forma não interesseira e egoísta. Quem diria...

O "povo" do Robô dá as caras, com nenhuma intenção de dialogar...

Smith tem após muitas intrigas e golpes tem o seu 
"momento redentor" se é que isto é possível...

 
e Smith... continuou sendo “Smith”, aqui conseguindo apagar o seu passado dos registros, demonstrando uma habilidade digna de um hacker, embora não consiga apagar de sua própria memória o fato de ser a tranbiqueira June Harris, havendo inclusive flashbacks de sua infância e juventude, sempre competindo com a sua irmã bem-sucedida Jessica (Selma Blair de Hellboy) em agradar a sua mãe Sheila (Angela Cartwright, a “Penny” da série original) ou conseguir olhar nos olhos da pequena Samantha (Nevis Unipan de Travelers) e sua mãe (Amanda Marier de Daughter for Sale), cujo pai ela ejetou no espaço para não ser pega (Os nossos fantasmas são nossos, e nunca nos largam) e daí em a sua necessidade de, por mais golpes que aplique, ela se sentir ligada psicológica e fisiologicamente aos Robinsons, pois afinal todo mundo se acha herói, e os vilões, se acham mais ainda do que a grande maioria das pessoas...

Vislumbramos no gigante gasoso um criatura digna das 
obras de Sir Arthur C. Clarke. A ciência é bem usada 
na temporada, em soluções inteligentes...

Reviravoltas não faltaram desde as descobertas de mais elementos ligados à civilização que criou o Robô (e o motor que eles usam na numa mostra de tecnologia reversa), a descoberta de um micro-organismo solúvel na água que corrói o metal da estrutura da nave, um motin liderado pelos Robinsons, para surpresa da Capitã Kamal (Sakina Jaffrey de House of Cards) no intuito de depor Hastings que prefere sacrificar os colonos e fugir face a um ataque alienígena ou até mesmo uma solução sem volta, em momentos dramaticamente acelerados pela edição de Mark Hartzell (Agente Carter da Marvel), Jack Colwell (Colony), Joe Talbot Hall (Siren), Emily Streetz (O Pior Trabalho do Mundo).

Don e sua inseparável "Debbie" enfrentam duras 
provações, mas, nada sem saída, pois todo latino é forte...
A cada episódio, os Robinsons praticamente só podem contar com
 eles mesmos para resolver o problema da vez...

A produção da série continuou impecável, tendo as locações na Islândia, na Columbia Britânica e em Alberta (Canadá) muito bem aproveitadas pela fotografia de Sam McCurdy (Abismo do Medo) e C. Kim Miles (Bem-vindos à Marwen) que valorizou o desenho de produção de Frank Walsh de Carnival Row (substituindo Ross Dempster) que junto com a direção de arte de John Alvarez (Serpentes à Bordo), Roger Fires (Timeless) e a decoração de sets de Kate Marshall (Desventuras em Série da Netflix) enriqueceram e personalizaram os espaços físicos habitados por esses personagens dizendo coisas sutis sobre eles refletidos nos figurinos de Christine Thomson de O Regresso (substituindo Angus Strathie) ou até mesmo em seus trajes espaciais, criados pela empresa de efeitos especiais FBFX .

"Corra Judy!!! Corra!!!"
As paisagens desoladas e semi-desérticas remetem ao 
planeta da primeira temporada da série clássica,
 mas fêz falta o cíclope gigante...

 Aliás os efeitos visuais das empresas Big Hug FX, Image Engine Design, Important Looking Pirates (ILPvfx), InternationalSPFX Group, SSVFX, e Digital Domain fizeram valer cada centavo gasto, criando cenas memoráveis como a tempestade oceânica em que a Júpiter 2 convertida em barco resgata uma sequência da série clássica em sua primeira temporada, da mesma forma como as cenas espetaculares dentro de um planeta gasoso cujas “baleias” remetem às obras de Arthur C.Clarke, com direito numa sequência em que a Resolute adentra na atmosfera mais profunda deste planeta, para abastecer-se de amônia, cabendo ao Robô fazer o papel de droide astro-mecânico similar a uma certa unidade R2 de uma “galáxia muito, muito distante”, reforçando as partes da estrutura que se abalam com a pressão, ou quando John e Maureen usam módulos de atividades extra-veiculares para acessar a Resolute pelo lado externo, ou ainda os predadores similares a velociraptors, que perseguem Judy num planeta. Agora, foi sentida a falta de recriar seres clássicos da série como o cíclope gigante, que a tecnologia atual permitiria atualizar facilmente. Fica para a próxima.

O Robô (Briam Stele) demonstra grande carga expressiva, 
 carregando em suas atitudes o questionamento sobre
 como tratar o diferente...
A "Fortuna", nave perdida do supostamente falecido pai de
 Judy e gancho para a próxima temporada. Os mistérios continuam...

Ao seu término, Perdidos no Espaço cresceu e apareceu bem, tornando-se referenciada às suas origens e, independente delas, deixando ganchos para possíveis rupturas com o cânone mas ainda sim ligados às idéias originais de Irwin Allen e Shimon Wincelberg, que foram sendo descartadas ao longo da série da série clássica em função do tom camp que foi se impondo.

"- Não, Will Robinson!"

As apostas estão abertas. Não perca o próximo episódio...

"- Vista bonita, não Maureen?"

 

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