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Crítica - Séries: Space Force - 1ª Temporada


Para o Alto e... avante?

por Alexandre César


Steve Carell e o "rabo de foguete" de Donald Trump



O vácuo do espaço é um meio inóspito, onde qualquer passo mal dado pode ser o seu último, fazendo a diferença entre a vida e a morte, onde ninguém ouvirá o seu grito se propagar, coisa que levará um tempo para o General Mark R. Naird (Steve Carell de O Virgem de 40 Anos) entender, pois o piloto condecorado que enfrentou duras provações na Bósnia nos anos 90, sonha em comandar a Força Aérea mas, por essas artimanhas do destino, é surpreendido pela notícia de ser indicado para liderar a mais nova divisão das Forças Armadas dos EUA: a Força Espacial.

O General Mark R. Naird (Steve Carell) é promovido a chefe da
Força Espacial. Sua esposa Maggie (Lisa Kudrow) e o secretário
John Blandsmith (Dan Bakkedahl ) o parabenizam...

Cético mas dedicado como todo bom soldado, Naird se muda com sua família para uma base remota no Colorado. É lá que ele e uma equipe de cientistas chefiados pelo Dr. Adrian Mallory (John Malkovich de Quero ser John Malkovich) e astronautas e... “astronautas”recebem da Casa Branca a missão urgente de pisar novamente na lua (e provar que o pouso da Eagle* não foi num estúdio...) e dominar totalmente o espaço, pois os chineses estão passando a frente dos EUA e, até a Índia está dando passos largos neste sentido.

Parceria: O Dr. Adrian Mallory (John Malkovich) é o melhor
aliado de Naird, tendo os dois uma química no
estilo "Kirk & Spock"...

O combate simulado entre Força Espacial e Força Aérea, usando
exoesqueletos, mostra a visão militar versus visão científica...


Marcando o reencontro entre Steve Carell e Greg Daniels, responsáveis a versão americana de The Office, uma das melhores comédias de todos os tempos, a produção da Netflix num formato de dez episódios com pouco mais de 25 minutos cada, Space Force ainda que fácil de maratonar, encara uma missão ingrata: O de competir com o cenário tragicômico atual que vivemos, onde aqui, caminhamos para a Idade Média, e nos EUA, o presidente Donald Trump que de fato, anunciou a criação de uma “Força Espacial” (com um logo que plagia o símbolo de Star Trek), que tal qual como a da ficção, objetiva “- Colocar coturnos na Lua!!!” e, superar a expectativa por uma série que não é forçada, daquelas que indica ao público o momento certo de dar risada. Ao contrário de um escritório, aqui é a Força Espacial. a imprensa especializada passou a massacrar a produção porque não entenderam a proposta. É preciso entender a piada para rir...

Erin Naird (Diana Silvers) é a filha adolescente e com tal,
vocacionada para se meter em encrencas...

O personagem de Carell é divertido até nos momentos mais tensos, afastando o personagem de uma figura militar totalmente descerebrada, mostrando-o como um homem repleto de valor e responsabilidades, apesar do caos de sua vida familiar, pois sua esposa Maggie (Lisa Kudrown de Friends) está presa (não sabemos por qual motivo...) que o aconselha a procurar companhia (pois as visitas íntimas são muito espaçadas...) e sua filha Erin (Diana Silvers de Vidro) é uma adolescente que se sente socialmente isolada no mundo, fora o pai senil Fred (Fred Willard de Modern Family) que sempre cai em golpes telefônicos.

O Relações Públicas F. Tony Scarapiducci (Ben Schwartz)
só se preocupa com as redes sociais...

Autoridade: Brad Gregory (Don Lake) o secretário de Laird
 é mestre em não ser respeitado por ninguém...


Na base da força Espacial, a equipe é beem insólita, a começar pelo Relações -Públicas F. Tony Scarapiducci (Ben Schwartz de Sonic: O Filme) que só se preocupa com os Likes e os Twits que qualquer atividade possa render, independente de sua lógica ou importância real (a trama dos novos uniformes bolados pela Primeira-Dama é qualquer coisa...), o Dr. Chan Kaifang (Jimmy O. Yang de Podres de Ricos) que tem boas sacadas (de quem Laird suspeita por ser neto de chineses) e que tem um crush platônico com a Cap. Angela Ali (Tawny Newsome de Woman Up) uma militar treinando para ser astronauta, Yuri Telatovich (Alex Sparrow de UnREAL) o cosmonauta residente, interessado em Erin, que flerta com o segurança Duncan Tabner (Spencer House de Doentes de Amor), e ainda temos a arquiteta prestadora de serviços Kelly King (Jessica St. Clair de Avenue 5) interesse romântico de Naird.

O Dr.. Chan Kaifang (Jimmy O.Yang ) é um dos poucos que sabe
realmente o que faz, entre os deslizes da chefia...

A Capitã Angela Ali (Tawny Newsome) treina para ser
astronauta, e até que faz bonito...


A espinha dorsal de Space Force se encontra na química entre Carell e Malkovich, sendo a dualidade entre o pensamento militar histérico e negacionista (que tenta resolver tudo com bombas...) que não acredita na ciência e tem as ideias mais malucas possíveis, e o sarcasmo científico (sempre buscando os melhores caminhos para solucionar as crises) rende os melhores e mais engraçados momentos da série, como quando usam um cachorro e um macaco de nome Marcus (Pontes?) em uma missão para consertar um satélite, ou quando há um combate simulado (usando exoesqueletos) entre a Força Espacial e a Força Aérea, liderada pelo General Kick Grabaston da Força Aérea (Noah Emmerich de The Americans), o nêmesis de Naird.

Maggie está presa (não sabemos porque...) e aconselha Naird
 à encontrar companhia fora (já que ela encontrou na prisão)...

Rivais: O General Kick Grabaston da Força Aérea (Noah Emmerich)
 hostliza Naird, por estar de olho no controle da Força Espacial...


São nestes momentos que surgem os melhores comentários sociais e políticos propostos pelo roteiro apesar de ocasionais deslizes científicos** , ou quando Edison Jaymes (Kaitlin Olson de As Bem-Armadas) uma versão feminina de Steve Bezos/Elon Musk chega para ajudar no desenvolvimento de um projeto, mas é apenas um golpe midiático para ela não fazer nada e levar o crédito por tudo que for bem sucedido na missão, ou quando ao defender o orçamento no congresso (com direito a sessão ser invadida por ativistas feministas vestidas de O Conto da Aia...) Naird tem de contar com o apoio do Representante Bob White (Tommy Cook de Beter Things) um conservador terraplanista, fora o secretário de estado John Blandsmith (Dan Bakkedahl de Vice) que está sempre metendo bedelho com cobranças estapafúrdias, repassadas pelo “presidente”, que nunca é visto, e só se comunica através do Twiter...

A multimídia Edison Jaymes (Kaitlin Olson): Uma versão
feminina de
Steve Bezos ou Elon Musk, com esse papo de
 "A iniciativa privada faz melhor"...

A um passo do desastre: Ele vai apertar o botão vermelho...

Temos ainda participações pontuais, ironizando o militarismo, nas reuniões do Conselho de Estado, quando Naird, além de ter de aguentar as farpas de Grabaston, ainda encara as zoações da Chefe de Operações Navais (Jane Lynch de O Virgem de 40 Anos), do General Rongley (Dietrich Bader de Harley Quinn), do Comandante do Corpo de Fuzileiros (Patrick Warburton de Desventuras em Série), com exceção do Comandante da Guarda-Costeira (Larry Joe Campbell de The Orville) que é sempre zoado por todos...

A simulação de missões longa duração: Mesmo fiel à ciência, o
design de produção e de figurino passa algo de galhofa...


Os valores de produção correspondem ao bom orçamento e cumprem corretamente o seu papel. O desenho de produção de Susie Mancini (Dollface) e a direção de arte de Gary Warshaw (Ad Astra: Rumo às Estrelas) criam espaços high tech críveis como as instalações da Força Espacial e da instalação para a simulação de missões de longo confinamento, mas ajudados pela decoração de sets de Rachel Ferrara (Barry) percebemos um toque de non sense, como se algo fugisse da proporção, coisa que os figurinos de Kathleen Felix-Hager (Vice) também refletem, como nos trajes de astronautas usados, ou nos “uniformes” propostos pela Primeira-Dama...

E aos trancos e barrancos (muitos) a equipe vai consertando
os absurdos (vários)  e avançando nas
missões...

A fotografia de Simon Chapman (Upload) usa tons cleans nas instalações e mais quentes na residência de Laird, e algumas vezes, auxiliado pela edição de Rob Burnett (A.P. Bio), Julie Cohen (Project Runway), Susan Vaill (This Is Us), David Rogers (Upload) Timothy A. Kuper (Icarus) e Joshua Toomey (O crush errado) usa dos cortes similares aos de um reality show, sublinhados pela musica de Carter Burwell (Três Anúncios para um Crime) que muitas vezes assume um tom intimista mas farsesco.

Não faltam momentos non sense por conta do espírito
paranóico de Naird
...

Confronto: A China não facilita nesta nova corrida espacial...


Ao final, Space Force tem os seus méritos por se apoiar num humor sutil, o que deve talvez afastar o grande público inicialmente, mas que com o tempo deverá gerar o seu fandon, e esperemos apenas que isto não demore muito, pois embora confirmada uma segunda temporada, só podemos esperar que as peripécias de Naird & equipe não acabem perdidas no espaço...


Para quem não entendeu o humor de Space Force ou quer entrar de cabeça na trama, sugerimos acompanhar os podcasts disponíveis em plataformas digitais, como Spotify, Podcasts da Apple, entre outros (somente em inglês). Num deles, o ator e apresentador Jimmy O. Yang recebe o elenco e o time de produção da série para explorar as histórias de bastidores num podcast de dez episódios, na época do lançamento, às segundas e quintas.


*: No caso aqui falamos daquela teoria conspiratória de que o pouso da Apolo11 foi uma simulação filmada em estúdio, e teria sido dirigida or Stanley Kubrick (2001: Uma Odisséia no Espaço) e que, por causa disso  ele não filmava mais nos EUA.

**: No episódio em que o macaco faz uma atividade extra veicular, ele usa uma desparafusadeira convencional, gerando problemas pela inércia num ambiente sem gravidade. Na realidade as ferramentas usadas no espaço são construídas com um sistema adicional de enrenagens que compensam a ação da inércia, impedindo que o usuário rode como um parafuso, inclusive vemos a personagem e Sandra Bullock usar uma na sequência inicial de Gravidade (2013).







Novos Clássicos: Os Irmãos Cara de Pau (1980)



À serviço do Senhor...

por Alexandre César 


Comédia alucinada com blues music na alma

 
Era para ser apenas mais um dia de liberação de um preso...

Numa manhã comum, um carro estaciona em frente ao presídio estadual da cidade de Joliet, condado de Will (Chicago).  
 
Elwood "Blue" (Dan Aykroyd) espera o irmão...
 
 É um velho e deteriorado carro de polícia (um Dodge Monaco1974, ainda com grande potência no motor) dirigido por Elwood “Blue”(Dan Aykroyd de Os Caça-Fantasmas) que espera a libertação de seu irmão“Joliet Jake (Blue)”(John Belushi de Clube dos Cafajestes) Que sai da prisão em liberdade condicional, ficando sob sua custódia. Ele cumprira dois anos de uma sentença de cinco por roubo a mão armada. O oficial correcional (Frank Oz de The Muppet Show) checa e entrega os seus objetos: Um isqueiro usado, um relógio de pulso quebrado, uma camisinha nova (e uma usada...) um conjunto de chapéu, calça, paletó, sapatos pretos e óculos escuros, tal qual Elwood ( ao longo do filme eles nunca tiram os óculos, e só em uma cena vemos os olhos de Jake).  
 
"Joliet Jake Blue" (John Belushi, aqui no único momento 
em que vemos os seus olhos) cumpriu pena por assaltar
 para pagar dívidas da banda...
 
 
Logo de início vemos do que o "Bluesmóvel" é capaz....
 

Após os portões se fecharem os irmãos se encaram e, em seguida abraçam-se silenciosamente de forma solene e surge o título do filme.


 
No orfanato (digno de um gibi da EC Comics) a Irmã 
Mary Stigmata (Kathleen Freeman) fala das dificuldades 
financeiras mas exorta os seus "meninos" a
 se redimirem do pecado...
 

E assim se inicia um dos grandes clássicos da comédia estilo Sessão da Tarde dos anos 80, ainda que beem menos inocente do que os filmes do gênero da época, misturando comédia, ação e musical e forma divertida e, apesar de não envelhecer tão bem assim, ainda é uma ótima opção para saudosistas e fãs de comédias mais físicas, tornando-se icônico.

 
Uma igreja que tenha Chaka Khan no coral...

... e um pastor como o Reverendo Cleophus 
(James Brown) com certeza tem "SOUL" (ALMA)...
 
 

Dirigido por John Landis Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers 1980) estrelado pela dupla John Belushi e Dan Aykroyd, que criaram os personagens Jake e Elwood “Blues” para o programa Sathurday Night Live, os sketches de ambos personagens foram desenvolvidos por Aykroyd durante várias apresentações no SNL. John Belushi em um bate papo com o amigo confessou estar meio cansado do que ouvia no Rock’n’Roll na época, Dan lhe passa seu estilo musical favorito, a black music, e a voz rouca do amigo seria perfeita ao estilo Blues. Dessas apresentações fariam carreira de sucesso* até chegarem ao cinema numa trilha de acidentes dignos das várias batidas de carro do próprio filme, a película funciona como um detalhamento maior da vida que os dois personagens já viviam no SNL e nos diversos shows. As características dos personagens são as seguintes: Elwood, é o lacônico homem heterossexual, que surpreende ao dançar com tanta desenvoltura em um estilo próprio dos Blues Brothers, Elwood toca gaita e faz backing vocal ao irmão Jake, esse é o barulhento e fanfarrão lead vocal da banda. Esse modo intenso e alucinado de dança foi criado por John Belushi é claro, muito evidente isso conhecendo o ator. Dan Aykroyd, que nunca havia escrito ou lido um roteiro** de cinema antes, contou com a colaboração de um roteirista profissional, Ron Gwynne, creditado como consultor no filme. Ron participou de uma enorme lista de filmes antes e depois desse contato com Dan Aykroyd mas será em The Blues Brothers seu esforço mais celebrado para a posteridade.



Neste momento Jake tem uma revelação divina: Reunir a banda e salvar o orfanato!

 Na trama, Elwood convence Jake a visitarem o orfanato Católico em que eles cresceram. Depois de "conversar" com a diretora do orfanato, Irmã Mary Stigmata (Kathleen Freeman veterana de vários filmes de Jerry Lewis), apelidada de "O Pinguim", eles ficam sabendo da difícil situação financeira da instituição, devedora uma grande soma em impostos (na realidade, as igrejas de Illinois são isentas, o que causou algumas reações contra a cena). A religiosa recusa energicamente dinheiro roubado oferecido pelos irmãos, distribuindo pancadas com uma régua.

 
Aretha Franklin é a dona de um café que se opoe
 a que seu marido volte para a banda...

A loja de instrumentos musicais de Ray (Ray Charles) é bem representativa do panorama da época...
 

 
Desanimados, eles não vêm muitas perspectivas de como salvar o orfanato e forma honesta.
 
A misteriosa mulher (Carrie Fisher) que quer acabar com
 a raça de jake. Felizmente para ele, a sua pontaria é falha...
 
 
Mais tarde, aconselhados pelo zelador do orfanato Mel Curtis (Cab Calloway de A Mesa do Diabo) a visitarem uma igreja Batista para ter alguma orientação quem sabe... A igreja é ministrada pelo Reverendo Cleophus (James Brown) que com a sua solista do Coro (Chaka Khan), promovem um ritual animado, cheio de música soul e intensa coreografia em uma leitura hilária de cultos pentecostais, apesar dos Batistas não serem pentecostais... Enfim; então Jake tem uma epifania: “os irmãos conseguirão os fundos honestos para o orfanato, através da apresentação da sua lendária banda de rhythm & blues a “The Blue Brothers”. Sem demora os irmãos começam a ir atrás dos antigos membros da banda, a saber os dois irmãos pegaram o gosto musical pelo blues a partir desse amigo, o Curtis; cinco deles estão tocando no lounge do Holiday Inn, no trombone e saxofone Tom “Bones” Malone, o guitarrista Steve “The Colonel” Crooper , Donald “Duck” Dunn no baixo, o baterista Willie “Too Big” Hall e nos teclados Murphy Dunne (que não tem um apelido...). Esses rapidamente concordam em se juntar aos dois irmãos.


O canadense fã de rythm blues Dan Aykroid apresenta ao amigo norte americano
toda a potência desse gênero musical e assim nasce The Blues Brothers e Banda.

O guitarrista, Matt “Guitar” Murphy e o saxofonista "Blue Lou" Marini serão um problema pois ambos trabalham para a esposa de Matt no filme, uma geniosa Aretha Franklin com um discurso musical sobre a luta do dia das mulheres na ponta da língua. O sexto integrante não será fácil também. Alan “Mr Fabulous” Rubin, os rejeita, se tornou o dono de um restaurante caro não quer arriscar seguir em uma aventura sem sentido, mas os irmãos que aprontam mil e uma confusões sabem como convence-lo. A banda sempre se apresenta como se aparecesse do nada e pronta para mandar ver, mas estamos tratando de um filme musical e de uma comédia, portanto nada de anormal nisso e é essa a idéia.

Essa é a jornada do herói dos dois irmãos (ou como diria Elwood -”Estamos a serviço do Senhor!”) onde encontrarão muitos percalços que eles provocam meio sem querer querendo, trazendo a cólera da polícia, brigas com neo-nazistas e a fúria de uma ex-namorada de Jake, uma mulher misteriosa (Carrie Fisher de Star Wars) que armada com um fuzil, bazuca e outros artefatos bélicos tentará acabar com a dupla.


O zelador do orfanato Mel Curtis (Cab Calloway) em seu momento solo com a
banda. Anos depois este número foi a inspiração para o comercial "Abuse e Use C&A"
Lembram??? Inclusive do personagem "Sebastian" que se tornou o garoto
propaganda da marca. O filme também inspirou outras criações por aqui*******




Apesar de seus modos questionáveis à mesa, Jake e Elwood são estilosos, com suas roupas e chapéus pretos, e os imprescindíveis óculos escuros. O visual e comportamento da dupla foi baseado em vários artistas que fizeram história no blues. A dança e o fato de atuarem em dupla se deve a Sam & Dave. Os chapéus foram influência de John Lee Hooker. O terno surgiu do conceito dos músicos de jazz dos anos 40, que diziam que, para manter o foco, era necessário vestir terno e gravata. Seguem de modo anárquico sua sagrada missão a bordo de um velho carro da polícia modificado (que eles chamam de Bluesmóvel) ao serem parados e perseguidos pela polícia (Elwood está com a carteira vencida) mostra a verdadeira potência do seu motor V-8. desencadeando um festival de perseguições e capotagens ao longo do filme que vão evocando de Bullit (1968), a Corrida contra o Destino (1971), Louca Escapada (1974) e Operação França (1971) tal é o esmero da equipe de produção, num festival de cavalos de pau, derrapagens e muitas (muuuiitas) capotagens desvairadas de carros policiais em efeito cascata, (mérito do coordenador e dublês Gary McLarty de 1941: Uma Guerra Muito Louca e do técnico em efeitos especiais Art Brewer de Agarra-me se Puderes) que levaram muitos executivos a arrancarem os cabelos, pois a ideia originalmente simples de “John Belushi, Dan Aykroyd, Blues Brothers, que tal?” se tornou um pesadelo para a Universal Pictures, pois severamente fora do cronograma (e do orçamento***) seu destino acabou dependendo da quantidade de quaaludes, mescalina, LSD, anfetaminas e de cocaína, muuuita cocaína que Belushi consumia, alimentado pelo seu apetite por diversão e aventura, em quantidades industriais...


Num restaurante chic, as "boas maneiras" à mesa...


Fosse como fosse, o grande mérito neste caos desenfreado foi de John Landis (que no ano seguinte faria o agora clássico Um Lobisomem Americano em Londres), foi ele que pegou o primeiro rascunho, que não era o típico rascunho de 120 páginas, mas sim, 324 páginas! -“Temos muito trabalho pela frente.” diria Landis, que com o roteiro na mão, se isolou do mundo fazendo cortes, dando forma, e o seu tom. E depois, cortou um pouco mais e mais, surgindo três semanas depois com um roteiro de bom tamanho e, como se costuma dizer, “filmável” (mais ou menos...). Ao final, ainda faltariam coisas como o direcionamento das cenas de shows e suas músicas****, e outras que foram sendo decididas durante o processo de filmagem, definindo mudanças, pois os executivos não sabiam como lidar com o filme, somente que ele tinha muita comédia. perseguições de carros e helicópteros, girando em torno de quatro números musicais apenas. Porém gigantes da black music vieram participar do filme: Ray Charles é o dono de uma loja de instrumentos, os já citados Aretha Franklin, James Brown e Cab Calloway e John Lee Hocker cantando na rua por uns trocados , o que demonstra o prestígio que a dupla havia conquistado no meio musical da black music, essas participações musicais são a alma do filme, sem trocadilho dessa vez. Ray Charles canta Shake Your Tail Feather, Aretha Franklin canta Think, James Brown cantando The Old Landmark e o veterano Cab Calloway solta a voz em Minnie the Moocher e John Lee Hooker meio ali “perdido” cantarola "Boom Boom". Além das performances de Jake e Elwood, há personagens como a Lady Chic (Twiggy de O Namoradinho), isso apenas para essas celebridades fazerem pontas, tudo girando em torno de Belushi, que se firmava como o ator cômico mais elétrico e popular de seu tempo. É até compreensível o desespero dos executivos... O filme também serviu ao longo dos como resposta a um som cada vez mais sintético que tomou forma nos anos 80, The Blues Brothers transformou-se em uma bandeira, o ícone do “não deixe o samba morrer”.

 
Entre as muita pontas de gente conhecida, temos Paul Reubens
( o "Pe Wee Herman") como um garçom...
 

Nas filmagens em Chicago Aykroyd passava seu tempo livre correndo pelos arredores e fazendo amizade com médicos legistas e Belushi, sendo o filho favorito de Chicago, faz o que quiser. Tudo nele — seu charme barato, sua absoluta falta de pretensão — faz de Belushi uma figura de popularidade local tão ressonante que Aykroyd o chama de “prefeito não oficial de Chicago” ***** .


A dupla compra uma briga com os neo nazistas de
Illinois, cujo chefe (Henry Gibson) quer a cabeça dos dois...


Visualmente o filme é sóbrio, e isso é um contraste curioso pois tudo ali flerta com o absurdo. O desenho de produção de John J. Loyd (Os Aventureiros do Bairro Proibido), a direção de arte de Henry Larrecq (O Enigma de Outro Mundo) e a decoração de sets de Hal Gausman (Mary Poppins) e Leslie McCarthy-Frankenheimer (O Fundo do Coração) criam cenários sutilmente cartunescos como os ambientes do orfanato, a igreja protestante, a loja de instrumentos musicais de Ray (Ray Charles) ou o Soul Food Cafe de Aretha Fraklin, o restaurante chic e cafona (com Paul Reubens o Pe Wee Herman como o garçon, quase passa a menção) onde a dupla encontra os remanescentes da banda ou, o shopping center de aspecto Kitsch que Elwood invade com o Bluesmóvel quando a dupla é perseguida pela polícia, pondo abaixo toda a sorte de lojas de departamentos e roupas em sua fuga.


O detetive Burton Mercer (John Candy) chefia a perseguição
da polícia (entre outros) à dupla....


Os efeitos visuais de Syd Dutton (Duna) Albert Whitlock (Terremoto) e Bill Taylor (A Bruma Assassina) são funcionais e sutis na medida da necessidade do filme, da mesma forma que os figurinos de Deborah Nadolman (Os Caçadores da Arca Perdida) apenas vestem os personagens de forma funcional, definindo-os mas nada se sobrepoe à dupla de preto e óculos escuros. O filme é a caixinha de areia deles.


E, no espírito mais desvairado possível, temos perseguições atravessando shoppings...


A modelo Twiggy faz uma ponta como a glamourosa que Elwood "xaveca" para um
encontro e, por causa da perseguição, ele "fura" o compromisso, deixando-a
esperando na frente do motel!!!


A trilha musical de Elmer Bernstein (Sete Homens e Um Destino) vai sublinhando entre os números musicais as ações da dupla, que a fotografia de aspecto quaase documental de Stephen M. Katz (Amargo Amor) e a edição de George Folsey Jr. (Clube dos Cafajestes) vai num crescendo em ritmo tonitroante acompanhando a corrida dos aloprados, com meio mundo em seu encalço, entre eles, o detetive meio desligado Burton Mercer (John Candy de Antes Só do que Mal Acompanhado), os policiais Mount (Steven Williams de Arquivo X) e La Fong (o próprio John Landis brincando de Alfred Hitchcock), o Chefe Nazista (Henry Gibson de Meus Vizinhos são um Terror) e seu Gruppenfuehrer (Eugene J. Anthony de A Rosa Púrpura do Cairo), e ainda ganham a antipatia de Tucker McElroy, um ameaçador cantor de country music (Charles Napier de Rambo II: A Missão) culminando em sua chegada no escritório da prefeitura para pagar os imposto do orfanato e receber o recibo das mãos do funcionário da repartição (Steven Spielberg) já com centenas de revólveres, rifles, fuzis, da polícia, da Guarda Nacional e o escambau mirando a dupla. Nunca tantos perseguiram tão poucos...


Momento sem volta: Diante da morte, o Gruppenfuehrer
(Eugene J. Anthony ao volante) faz uma revelação ao líder...


... e mais perseguições, não deixando pedra sobre pedra...


Baixada a poeira, começou a batalha para editar e depois lançar o filme. Em Nova York, Belushi se dirige de sala em sala, avaliando o público. Aykroyd assiste ao filme em um cinema na Times Square, sondando o público. À época de seu lançamento, em 1980, o filme foi malhado pela crítica, tendo derrapado nas bilheterias norte-americanas, mas logo, a despeito de ter excedido seu orçamento, e de ser desnecessariamente longo e claramente falho, Os Irmãos Cara de Pau fatura US$ 115 milhões, além de posteriormente ganhar o mercado de vídeo****** tornando-se um dos sucessos mais duradouros da Universal e, numa eleição da BBC das 100 melhores comédias do cinema de todos os tempos feita em 2017, ocupando a 53ª posição no ranking.


... e temos mais batidas...

...e batiiidasss em cascata, que inflaram o orçamento...



Planos para dar sequência às aventuras dos dois irmão existiam, mas a morte de Belushi por uma overdose de spedball colocou por terra esses planos, apesar de nos palcos a banda ainda se apresentar com sucesso,com participações de músicos consagrados e ocasionalmente, James Belushi (irmão de John na vida real) como Zee, um irmão distante, mantendo a luz do grupo acesa. Seria possível uma nova empreitada?


Esta cena é inesquecível, digna de um cartoon de Tex Avery...



Lançado em 1998, Os Irmãos Cara de Pau 2000, trouxe de novo Aykroyd e Landis num roteiro similar ao do primeiro filme, retornando Aykroyd como Elwood “Blue” que, dezoito anos depois da primeira missão, está saindo da cadeia e descobrindo que muita coisa mudou enquanto ele esteve preso. Seu irmão e parceiro Jake morreu, sua banda se separou e o orfanato onde cresceu foi demolido.No elenco John Goodman como um tristonho barman, além de Joe Morton e o garoto J. Evan Bonifant (na época com 10 anos) como um problemático órfão chamado Buster no caminho da redenção, sendo eles uma nova formação do Blues Brothers, que embarcam em uma nova missão, que será reunindo a velha banda para competir num concurso de bandas, e como sempre, arrumando muita confusão com a polícia, a máfia russa entre outros grupos. Aretha Franklin, James Brown reaparecem. Nos outros números musicais estão Sam Moore, Wilson Pickett, Paul Shaffer, B. B. King e Eric Clapton, dentre outras estrelas da música. A despeito de sua descontração, o filme não reeditou o mesmo sucesso pois, tirando o caso da ressurreição de jason Vohrless (de Sexta-Feira 13), um raio não cai duas vezes no mesmo lugar...

"Os Irmãos Cara de Pau 2000" (1998) John Goodman, Aykroyd, Joe Morton e o
garoto J. Evan Bonifant. Boas intenções não bastam para fazer um filme relevante...


A saga dos irmãos “Blue”talvez continue nos palcos, nos discos ou quem sabe alguns outro tipo de mídia que venha a surgir, mas nas telas ela parece estar concluída seja para o bem, seja para o mal, na melhor tradição da blues music.


John Landis, na grua, o arquiteto que deu forma à sinfonia
de caos que o filme ameaçava se tornar.




*: Originalmente a banda “The Blue Brothers”, saiu do Sathurday Night Live para carreira solo com performances musicais dos dois comediantes que gravaram discos co grande sucesso e, que continuou a se apresentar após o filme, variando os membros e, apesar da morte de John Belushi, dois anos depois do lançamento nos cinemas, conseguiram seguir carreira.


O primeiro álbum: Primeiro lugar na Billboard...



**: Sem roteiro é quase impossível produzir qualquer coisa. Belushi pede a Mitch Glazer, roteirista ganhador do Emmy e autor de boa parte dos melhores Sketchs de Sathurday Night Live, que colabore com Aykroyd, dizendo: “Invente alguma coisa pelo menos”.


***: O orçamento do filme era de US$ 17,5 milhões, uma aposta cara, principalmente para uma comédia, tendo ao final ultrapassado em mais outros US$ 10 milhões.

Aykroid chegou a fazer story boards de
algumas sequências de perseguição...



****: O álbum The Blues Brothers: Music from the Soundtrack foi gravada em Junho de 1980 como o segundo álbum da The Blues Brothers Band. A canção promocional do filme, “Gimme Some Lovin´” figurou entre os 40 "top hits" do ano. Este álbum seguiu o de estreia, o álbum ao vivo Briefcase Full of Blues. Houve um segundo álbum ao vivo Made in America, com o sucesso "Who's Making Love" , apresentando diferenças nas canções do filme em relação às presentes no álbum, ouvindo-se um coro feminino na canção "Everybody Needs Somebody to Love", quando no filme a banda não possui cantoras. O saxofonista Tom Scott e o baterista Steve Jordan, estão no álbum mas não participaram do filme.


*****: -“John literalmente chamava carros da polícia como se fossem táxis”, disse Mitch Glazer numa entrevista. -“Os policiais diziam: ‘Ei, Belushi!’ Então a gente caía no banco traseiro e os policiais nos levavam para casa.”


O último álbum do grupo, antes da morte de John.



******: No Brasil, Os irmãos cara de pau ficou pouco tempo em cartaz nos cinemas (estreou em abril de 1981, no Rio de Janeiro, e ficou somente até meados de maio). Tendo demorado cerca de nove anos para chegar nas prateleiras das locadoras de home vídeo, saindo em junho de 1990 pela CIC Vídeo na sua versão VHS.


*******: Os Cara de Pau de Leandro Hassum e Marcius Melhem nem fazem questão de outro título para demonstrar a referência não é mesmo?




O filme está entre as 100 melhores comédias do cinema de todos os tempos...





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