Páginas

Crítica - Filmes: A Maldição do Espelho



Jumpscare requentado e pouco molho russo


por Alexandre César 


Filme russo emula (muito mal) horror americano 

 

Apesar do título, não tem nada a ver com Agatha Christie...

 
 E mais uma vez tenho o prazer questionável de ver um filme russo (mau) dublado em inglês cuja dublagem parece ter sido feita por uma equipe de fonoaudiólogos, tal é a sua preocupação em dizer claramente as palavras pouco se importando com a interpretação, fora a quantidade de clichês e lugares-comuns do próprio filme.  


Olya (Angelina Strechina) é a adolescente 
heroína revoltada da vez...

 A distribuidora Paris Filmes recebe estes filmes de uma empresa que os distribui nos EUA dublados (pois americanos têm preguiça de ler legendas, hábito que estamos copiando infelizmente) e estas cópias é que são mandadas para aqui. Em alguns casos como em Os Guardiões (2017) o recurso funciona, realçando o artificialismo da trama, mas na maioria dos casos fica apenas ruim mesmo...


Olya tem por seu Artyom (Daniil Izotov) seu perturbado
 irmão, uma ojeriza pouco explicada. Agora, 
reparem no bonequinho do garoto...


No prédio do internato. a antiga proprietária 
(Claudia Boczar) fazia rituais satânicos......

Dirigido por Aleksandr Domogarov (Morra!) A Maldição do Espelho (2019) segue a mesma linha do terror barato,bastante apoiado em jumpscares como A Noiva (2017) e A Sereia: Lago dos Mortos (2018) ambos dirigidos pelo seu compatriota Svyatoslav Podgaevskiy e estrelados por Viktoriya Agalakova (a Scream Queen russa) mas pelo menos é um pouco melhor dirigido, embora não o suficiente para salvar o filme do desastre.


Estereótipos teens: Misha (Yan Alabushev), Sonya 
(Alyona Shvidenkova), Kirill (Vladislav Konoplyov), 
Olya e Alisa (Anastasia Talyzina).


Uma boa sacada é o uso de efeitos físicos aliados à fotografia...

O roteiro da estreante Maria Ogneva se apoia na lenda urbana da “Rainha de Espadas”, entidade que atenderia desejos em trocas para lá de indigestas para os pleiteantes, mas no final das contas o que o filme mostra não é nada de realmente mirabolante comparado com o que já vimos em outros filmes, ficando a tal “Rainha” algo não muito diferente da nossa “Loura do Banheiro” e apesar das diferenças culturais, como os personagens são bem estereotipados na linha de menbros de High School fica fácil acompanhar a história dos irmãos Olya (Angelina Strechina) e Artyom (Daniil Izotov) que traumatizados pela morte da mãe (Violetta Davydovskaya) num acidente de carro, em que morreu ao salvá-los de afogarem-se, gerando revolta na adolescente e repúdio pelo irmão caçula (sentimento que não recebe maiores e necessárias explicações), que cria uma carência obsessiva pela falecida, pois o pai, ausente (do relacionamento e do filme) os matriculou num internato afastado, administrado por Valentina (Darya Belousova) diretora de ar severo, onde os outros integrantes seriam facilmente integrantes de séries como Elite, Riverdale, 13 Reasons Why e etc... tendo Kirill (Vladislav Konoplyov) o mauricinho rebelde que odeia a madastra, a sexualizada Alisa (Anastasia Talyzina) que repudia a mãe ausente e super afim de Kirill (Vladislav Konoplyov) o professor, a gordinha Sonya (Alyona Shvidenkova) viciada em comer e o nerd Misha (Yan Alabushev) bolsista que faz os trabalhos de Kirill por dinheiro.


Alisa e Micha próximos ao espelho que exibe o desenho
 (feito com sangue) da escada, alusão a "Um Portal"...


Artyom revela emseus desenhos, uma "presença" que o ronda...

Tentando se enturmar, os jovens acabam encontrando (obviamente à noite...) uma câmara oculta no prédio, onde segundo as pesquisas na internet de Misha, a antiga aristocrata, dona do imóvel (Claudia Boczar) fazia sacrifícios de crianças para reaver a alma de seu filho afogado, tornando-se após os camponeses invadirem a casa e matá-la, a “Dama de Espadas” e aí os adolescentes fazem pedidos, que obviamente levarão cada um deles a um destino cruel na melhor tradição de filmes de horror adolescente... mas como o desenvolvimento destes é bidimensional, pouco nos importamos com o que aconteça com eles, e da mesma forma, o desenvolvimento pífio da temática central da obra, impede o envolvimento do público com as transformações no relacionamento entre os irmãos, sendo mera conveniência para justificar o desenrolar da história, tornando a redenção da protagonista banal e esquecível.


A direção de arte e a fotografia são os pontos altos do
 filme que criam uma atmosfera mal aproveitada
 pelo roteiro e a direção...

Felizmente apesar de ser um filme de baixo orçamento, o diretor opta por efeitos físicos, opções de ângulos de câmera desfocados , ao invésde um CGI barato, o que faz bastante diferença, além da música de Sergei Stern (Os Canibais) ajudar competentemente a atmosfera que a fotografia de Aleksey Strelov (Phantom) e a edição de Vladimir Markov (Konvert) e a boa direção de arte da estreante Nikita Khorkov, e os figurinos de Oksana Shevchenko (Marshrut postroen) cumprem o papel de caracterizar seus estereotipados personagens como o “descolado”, a “gostozona”, o “inseguro”e etc...



Dietética: Sonya aprende a fechar a boca...

Ao final, se puder escolher, prefira ver o A Maldição do Espelho na TV quando passar (o que não deverá demorar...) ou com som original ou dublado em português, coisa que fizeram com o igualmente ruim O Manicômio (2018) mas que ainda sim, com certeza soará melhor do que com esta dublagem de Google Translator... Acredite em mim. A Rússia com certeza merece um destino melhor do que querer imitar o cinema barato americano.


"- Este beijo foi intenso..."




Crítica - Filmes: Bloodshot


Upgrade de game

por Alexandre César


A busca de Vin Diesel por uma franquia 

 

A desesperada busca por uma nova franquia começa...
 
Ray Garrison (Vin Diesel da franquia Velozes & Furiosos fazendo ”Vin Diesel” como sempre) é um bom soldado que após realizar uma missão de resgate no oriente médio e, adicionar mais algumas cicatrizes à sua coleção corporal retorna para casa e para os braços de sua mulher Gina (Talulah Riley de Westworld) tendo uma bela noite de amor, mas posteriormente o casal é capturado por malfeitores a mando de Martin Axe (Toby Kebbell de Rock´nRolla: A Grande Roubada) que após matá-la com requintes de crueldade, o elimina à queima-roupa, mas Garrison desperta num laboratório de última geração comandado pelo Dr. Emil Harting (Guy Pearce de Amnésia e da cinesérie Jack Irish) que conseguiu o seu corpo, doado pelo exército americano (já que não havia ninguém para reclamá-lo) conseguiu num experimento pioneiro reanimá-lo e torná-lo virtualmente invencível ao substituir seu sangue por um fluido composto de nanytes, micro-robôs de aspecto insectóide, cuja única função é reconstruir os seus tecidos corporais a cada dano recebido, dando a chance de Garrison ter a sua vingança e fazer justiça... ou não?
 
O original dos quadrinhos tinha cabelo, num visual similar ao do colossus dos "X-Men"...
 
Dirigido por Dave Wilson (Técnico de efeitos visuais de Vingadores: A Era de Ultron e de vários games fazendo aqui o seu debut) Bloodshot (2020) adapta o personagem exército-de-um-homem-só dos quadrinhos da Valiant Comics criados por Kevin VanHook, Bob Layton e Don Perlin, num estilo que o roteiro de Jeff Wadlow (Kick-Ass 2, e também autor da história) e Eric Heisserer (A Chegada) mescla de forma bastante visível ideias já vistas em Robocop, Soldado Universal, Wolverine,Total Recall e até Amnésia, numa vitamina de referências que não é perfeita, mas diverte, principalmente o espectador ocasional que não se prende a detalhes e quer mais é ver o bombado Diesel turbinar os seus desafetos enquanto se recompõe dos tiros, trombadas e explosões direcionados contra ele, tal qual um mix de Exterminador do Futuro com Walking Dead, graças à eficiência dos efeitos físicos da Weta Workshop e visuais da Method Studios, Image Engine, e Rodeo FX destruindo e reconstruindo o corpo e as feições de seu protagonista num ritmo de videogame, principalmente nos embates com seu antagonista de equipe Jamie Dalton (Sam Heughan de Outlander) quando visualmente tudo descamba para o aspecto “bonecão” pela velocidade das cenas e sua óbvia inverossimilhança.
 
Momentos felizes: Ray (Vin Diesel) e Gina (Talulah Riley) 
Garrison:num momento feliz após massacrar inimigos...
 
 
 
Garrison vira um "exército de um homem só" após voltar dos mortos...
 
 
Aliás a narrativa une dois veículos de cultura pop ao adotar a narrativa que emula um videogame: Os quadrinhos da Image Comics e o cinema de Michael Bay ambos plenos de uma plasticidade falsa, plena de pirotecnia,músculos, armas de fogo e mulheres poderosas mas objetificadas, parecendo pin-ups ambulantes, sendo Gina e Katie (Eiza Gonzales de   Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw) personagens-símbolo dessa tendência: a esposa como “repouso do guerreiro”
 para quem o herói volta pois “já que ele matou, agora tem que transar” e a outra a parceira de igual para igual (ela também é aprimorada, podendo respirar embaixo dágua e em ambientes tóxicos). 
 
 
Katie (Eiza Gonzales) menbro da equipe aprimorada
 e capaz de respirar embaixo d´água...
 
 
A fotografia de Jacques Jouffret (22 Milhas) passa a textura e a iluminação de um game na cena inicial da missão de resgate no apartamento no oriente médio e a edição de Jim May (Rampage: Destruição Total) estrutura com o seus cortes essa sensação, ficando mais evidentes quando Garrison começa a se dar conta de que a sua percepção do mundo e de seu passado pode ter sido manipulada, ficando mais evidente após esse momento para refletir a sua consciência do fato, e até a presença de dois personagens nerds/ hackers como o divertido Wilfred Wigans (Lamorne MorriA Noite s de A Noite do Jogo), que numa cena homenageia Kobe Bryant, e o T.I. Eric (Siddarth Dhananjay de Undone), que utilizou os códigos abertos de Wigans para escrever a programação de Garrison, enfatiza a noção do soldado robótico... que virou um soldado robótico, com nanytes!
 
Martin Axe (Toby Kebbell): O vilão. Ou não???
Katie (Eiza Gonzales) menbro da equipe aprimorada
 e capaz de respirar embaixo d´água...
 
 
A música de Steve Jablonsky (da cinesérie Transformers) trabalha no seguro no gênero, inserindo hits hoje clássicos como Psycho Killer do Talking Heads e Maybe I´ve Lost You na interpretação de Robert Cuffin entre outras para sublinhar ou realçar um momento mas nada realmente memorável, e da mesma forma o desenho de produção de Tom Brown (Whitechapel) e a direção de arte de Simon Lamont (007: Cassino Royale) Moray McGregor (Maze Runner: A Cura Mortal) e Cristina Serra (Tomb Raider: A Origem) criam ambientes sofisticados e high-techs dignos de James Bond, mas impessoais e genéricos, indo os figurinos descolados de Kimberly A.Tillman (xXx: Reativado) na mesma direção.
 
 
Garrison ao final tem um embate épico com Jamie Dalton 
(Sam Heughan) digno de XBOX...
 
 
Ao final, Bloodshot é um filme-pipoca competente e só, que deve reuperar o seu investimento, se a pandemia do Corona Vírus assim o permitir, e talvez, quem sabe garanta mais uma franquia a Diesel, fã de quadrinhos, e que procura ser algo mais do que Dominic Toreto ou Riddick, o seu melhor personagem...
 
 
"- E agora, pego um carro tunado e saio em 
disparada ou não? Dúvida cruel!"
 

 

 

 

 

 

Crítica: Westworld- 2ª Temporada




Livre-arbítrio, identidade e o Fantasma da Máquina

por Alexandre César

Nova temporada aposta no "dia seguinte" da anterior 

"Festa muito louca": William, o "Homem de Preto" 
(Ed Harris), no dia seguinte ao massacre...

 Ano de 2016. Após anos de gestação chegava ao ar a 1ª temporada de Westworld, usando como base o texto de Michael Crichton para um filme que ele também dirigiu nos anos 70 (Westworld, Onde Ninguém Tem Alma, 1973) E ela se torna um grande e improvável sucesso. Esperava-se na produção a inegável qualidade da HBO, mas surpreendeu a todos com uma narrativa complexa, misturando dois gêneros incomuns, e algumas das melhores reviravoltas e surpresas da TV atual . 

Dolores (Evan Rachel Wood) & Teddy (James Marsden):
 Uma rajada de balas, muitas balas

Agora, mudando a dinâmica de sua temporada de estréia, o que antes era um mundo cheio de possibilidades (pois, criar algo na encolha e entregar gratas surpresas a partir de baixas expectativas já não é surpreendente) ruma agora em uma direção caótica, ao mesmo tempo em que expande este universo. Se antes havia um cenário de Velho Oeste apresentado como uma Disneylândia para adultos, com sexo e violência, agora os “Piratas do Caribe” e os personagens de outros cenários tomam conta do pedaço e ninguém mais está rindo e se divertindo...

Ser ou não ser: Bernard (Jeffrey Wright) e um "drone".

O sucesso é algo redentor, mas pode rapidamente virar uma praga bíblica pelas cobranças e expectativas geradas e agora, com a grande quantidade de fãs que a série adquiriu, o buraco ficou mais embaixo. Os criadores deram respostas da melhor forma que a série pode oferecer, mas levantaram mais perguntas e instigaram o seu público a continuar acompanhando o seu desenrolar com uma produção impecável, num nível acima da grande maioria das outras séries. 

Arigatô: Maeve (Thandie Newton) a "gueixa-cafetina"...

A outrora indefesa Dolores Abernathy (Evan Rachel Wood, bela e precisa na sua composição de personagem) se tornou uma impiedosa revolucionária máquina de matar. Ela é a líder da revolta dos Anfitriões, capaz de sacrificar tudo e todos que fiquem no seu caminho para alcançar seus objetivos. 

Ano 2003 - Operação Terra (FutureWorld, 1976): A continuação do Westworld original

 Como diz o ditado: “a mulher faz o homem. Dolores “faz” o seu amado Teddy Flood (James Marsden, muito mais do que um rostinho bonito). Eles se tornam, durante boa parte da temporada, em versões de Barbie e Ken no modo Exterminador do Futuro. Decidida a destruir os humanos e chegar ao Além do Vale, Dolores, de certa forma, trocou de posição com Maeve Millay (Thandie Newton, ótima ao mostrar o aprofundamento da personalidade da “cafetina”). 

James Delos (Peter Mullan): Como todo rico FDP 
anseia "viver para sempre". Boa sorte...

Maeve, por causa da busca por sua filha, torna-se mais sensível nesta temporada e capaz de demonstrar empatia. Ela e sua trupe , incluindo Hector Escaton (Rodrigo Santoro, que, mesmo tendo pouco tempo de tela, mostra como conseguiu superar as limitações impostas pela indústria por ser um “ator latino”) e Lee Sizemore (Simon Quaterman, divertido e triste quando necessário), protagonizam momentos memoráveis ao flertar com o estilo do diretor Akira Kurosawa para criar o Shogun World, um "faroeste nipônico" cujos personagens são suas versões espelhadas num mundo oriental. Muito legal, mas esta foi passagem abrupta, deixando apenas um gostinho de quero mais. Se a série tiver mesmo cinco temporadas, então devemos vislumbrar mais um ou dois mundos diferentes pelo menos.

Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins) e Bernard 
(Jeffrey Wright): O onipresente "Fantasma da Máquina"

Um ganho para a 2ª temporada de Westworld foi a possibilidade de explorar novos personagens - apesar de nem sempre isto ser uma uma boa ideia. Enquanto Charlotte Hale (Tessa Thompson) ganha a importância merecida na narrativa, atuando com elegância, Karl Strand (Gustaf Skarsgård), o chefe de segurança da Delos, é bidimensional, sendo trabalhado apenas o que o roteiro precisa. Erros e acertos.

Karl Strand (Gustaf Skarsgard) e Charlotte Halle (Tessa 
Thompson): O meramente funcional e a  personagem de fato...

O Homem de Preto (Ed Harris, soberbo em olhares e linguagem corporal), com sua paranoia e violência absurdas, mostra todo seu potencial, através de sua dor física e emocional, quando demonstra sua relação frustrada com a esposa Juliet Delos (a bela Sela Ward) e sua até então incapacidade de ser feliz, contrastando com seu senso de satisfação com a nova situação do parque - agora tudo se reduz a uma básica e primitiva luta pela sobrevivência. Tudo isso culmina no desenlace com sua própria filha, Grace (Katja Herberts), e seu questionamento da realidade. Em contrapartida, complementando a sua caminhada, continuamos a acompanhar o seu alter-ego no passado, o jovem William (Jimmi Simpson, cheio de nuances em seu personagem), que apresenta um trabalho equivalente, complementando as informações de quem ele é e porque se tornou assim. Temos aqui, bem apresentado, um vilão/anti-herói trágico, cujas nuances e diferenças entre estes dois lados do personagem estão completamente borradas.

William e Julet Delos (Sela Ward): A bela e frustrada esposa...

Um dos motes centrais desta temporada está na apresentação do surpreendente projeto pessoal de William quanto ao parque, que retoma a um tema recorrente da ficção científica: o prolongamento da vida através da transferência da essência do indivíduo para um corpo mais durável, seja mecânico ou geneticamente aprimorado (como na série Altered Carbon da Netflix), permitindo a indivíduos ricos e poderosos, como James Delos (Peter Mullan), vencer a morte e continuarem a acumular indefinidamente poder e riqueza, tornando-se quase deuses (quando dá certo...). Esta proposta nos remete a Futureworld (aqui no Brasil, passou nos cinemas com o título de Ano 2003 – Operação Terra ), filme de 1976, com Peter Fonda e Blyte Danner, dirigido por Richard T. Heffron. Esta é a continuação esquecida do Westworld original e nela temos Yul Brinner reprisando sua clássica versão do Homem de Preto.

Linhas narrativas: Lee Sizemore (Simon Quaterman),
 o roteirista das atrações do parque...

O arco da confusão mental e temporal de Bernard (Jeffrey Wright, nos dando o mais humano dos anfitriões), com sua perspectiva truncada, nos guia durante toda a temporada em uma nova forma de “brincar” com as linhas temporais. Mesmo que sua desorientação o torne um personagem indigesto, devemos a Bernard grande parte dos mistérios plantados no decorrer da trama, sendo a relação dele e de Maeve com o ”falecido” Dr. Robert Ford (Anthony Hopkins, capaz de atrair toda a atenção para si – mesmo que em silêncio) é inegavelmente um dos pontos altos da 2ª temporada. Sua presença como uma “assombração” (na verdade um programa, um “fantasma da máquina”) na mente da dupla, ora incitando, ora tomando o controle, mostra o quanto o “velhinho” Ford tinha tudo planejado.
 
 Conflito de gerações: William e sua filha Grace (Katja 
Herberts) na sua história conturbada...

Um momento genial foi a apresentação de uma nova perspectiva do que é mostrado na série no episódio inteiramente dedicado à sabedoria de Akecheta (Zahn McClarnon), um dos membros da Nação Fantasma, brutal tribo indígena que anteriormente apenas servia como figuração, totalmente à margem da história principal. Aqui temos suas motivações e objetivos apresentados de maneira clara, conectando-se a todos os outros protagonistas num dos melhores episódios da temporada, pelo seu tom poético e até místico.

Akecheta (Zahn McClarnon) da "Nação Fantasma": De
 figurante de luxo a protagonista de sua própria história.

O quebra-cabeças temporal, que define o tabuleiro depois dos acontecimentos da primeira temporada, mostra novas direções além de trazer novidades às narrativas - como anfitriões drones tentando retomar o controle sobre o parque e a breve menção ao Raj World, que seria um mundo colonial inglês na índia - que prometem expandir ainda mais o universo. Percebemos que, diferente do que vemos mostrando que não se trata de alcançar um objetivo final - como foi no ano um - e sim mostrar que Westworld é apenas um único elemento visto até então de um complexo parque muito maior. 

Hector Escaton (Rodrigo Santoro): Latino, sim. Caricato, nunca!!!

A aposta na experimentação visual e temática inseriu o imprevisível na série, ora entregando algo completamente inédito, ora mudando as suas próprias regras do jogo a cada capítulo – valendo-se para isso da sua alta qualidade dos roteiros, do apuro visual e/ou da excelente trilha sonora de Ramin Djawadi, que apresenta algumas músicas conhecidas do público, seja usando temas da própria série, em arranjos instrumentais diversos dos originais, ou apelando a hits conhecidos, marcando os momentos de drama, humor, suspense e romance, mas, acima de tudo, sublinhando a ação externa e a introspecção de seus personagens.

Quem "programa" quem? Bernard...

O ritmo lento e cadenciado da série afasta muitos, mas premiará os que forem pacientes. Finda a busca pela “terra prometida”, a 2ª temporada conseguiu atingir a maioria das expectativas, numa conclusão com cara de ponto final. Fugindo da lógica da indústria, a HBO percebeu que o ideal é ter o seu próprio tempo, sem lançar temporadas apressadamente ano a ano para manter o público cativo, mas sim, se preocupar em ter uma produção, direção e roteiro impecáveis, com atores capazes e assuntos que dialogam com o “agora”.


William e Ford: O "jogo" nunca termina...apenas se 
espande para uma nova fase... e além.


Para futuro, Westworld pode apostar em todos os aspectos: do maior teor cinematográfico até a temática cada vez mais existencialista, pois a produção deu confiança para as nossas maiores expectativas. Perguntas ainda existem, mas, se você não quer tentar respondê-las, é que essa série simplesmente não é para você.


Todas as apostas estão abertas...

 

Crítica: Ragnarok - 1ª Temporada



Smallville Nórdica

por Alexandre César

Modesta série teen investe no subtexto mitológico


Thor e Loki: Os irmãos Magne (David Stakson) e Lautits Seier (Jonas Strand Gravli)...

Retornando à sua cidade natal após 10 anos Turid Seier (Henriette Steenstrup) natural de Edda, na Noruega, perdeu o marido nova e criou seus dois filhos Magne e Laurits sozinha sendo uma mulher meio perdida. Magne Seier (David Stakson), o filho mais velho, é um rapaz louro, grande e forte que usa óculos desde os dois anos jovem e sofre de dislexia e Laurits (Jonas Strand Gravli) o irmão mais novo é magro, pálido e de cabelos negros, sendo conflitante com Magne embora leal.

O velho caolho (Bjorn Sundquist) o "Pai de Todos"...

Logo no dia do seu retorno à Edda Magne ajuda um velho caolho (Bjorn Sundquist) De cadeira de rodas e Wenche (Eli Anne Golestad) a caixa do mercado local diz que ele é uma pessoa boa e lhe passa a mão na testa, e rapidamente Magne ganha sentidos aguçados, não precisando mais dos óculos e começa a sentir as mudanças climáticas, além de adquirir força e resistência desmedida e ainda sendo capaz de arremessar martelos a loongas distâncias.


Confronto: Vidar Jutul (Gísli Örn Garðarsson) reconhece em Magne um inimigo antigo.


Turid, sua mãe, trabalha na contabilidade de Vidar Jutul (Gísli Örn Garðarsson) chefe e dono das Indústrias Jutul, principal empregadora da cidade, acusado por Isolde (Ilva Theron Bjorkas) ativista ecológica (a mãe morreu de câncer) que se torna amiga de Magne que tenta provar a culpa das Indústrias Jutul pela poluição do fiordes. A sua morte trágica desencadeia no rapaz a busca por justiça entrando em rumo de colisão com o empresário, que é mais do que um mero mortal...

Ran Jutul (Synnøve Macody Lund) a bela matriarca da última família de Gigantes...

Criado pelo showrunner Adam Price e com direção de Mogens Hagedorn e Jannik Johansen, Ragnarok é a nova aposta da Netflix, sendo uma série teen norueguesa de baixo orçamento e pouco CGI, que narra o que seria o conflito final entre os deuses nórdicos (encarnados nos tempos atuais) com os gigantes, e lembra em seu desdobramentos Smallville, a série que mostrava a adolescência do futuro Homem de Aço, trocando o Kansas pelas belíssimas locações da cidade de Odda com seus fiordes, montanhas e florestas imponentes que e boa fotografia de Philippe Kress (Riviera) sabe valorizar plenamente.

Amor impossível: Magne gosta de Gry (Elma Bones) que gosta de Fjor...

A caracterização dos personagens é clara, percebendo-se logo na primeira sequência que Magne é Thor, Laurits é Loki, velho caolho é Odin, a caixa do mercado local, uma vidente norn. Trynn, o cão dos Jutul, na verdade é o lobo Fenrir. e por aí vai, sendo mencionado por Erik (Odd-Magnus-Williansom) pai de Isolde e prof. de História do colégio que Edda foi a última cidade da Noruega a abraçar o cristianismo, abdicando do culto aos velhos deuses, o que teria sido o primeiro Ragnarok (o fim do mundo a mitologia nórdica), ocupando Isolde em sua busca de justiça e defesa do meio ambiente, uma posição equivalente à do honrado Balder, cuja morte na mitologia desencadeou o Ragnarok. Visar e sua esposa Ran Jutul (Synnøve Macody Lund) que é a disciplinadora e forte diretora da escola, sua filha Saxa (Theresa Frostad Eggesbø), a "popular" da escola e Fjor (Herman Tømmeraas) o filho playboy, que olha os mortais como nada, são a última família de Gigantes, inimigos figadais dos Deuses que são os responsáveis pela devastação ambiental, o que leva a crer que devem existir mais Gigantes no mundo...

Laurits logo se enturma com a turma de Saxa Jutul (Theresa Frostad Eggesbø) a mais popular da escola...

O protagonista, por ser disléxico e tímido funciona melhor quando acompanhado, pois a sua natureza contida não permite grandes vôos dramáticos, ficando o contraste na reação da quem está com ele na ocasião como a ironia cínica de Laurits (que é gay, inclusive de travestindo numa cena), o temor materno de Turid, ou as reações de Gry (Elma Bones) colega de Magne e interesse amoroso dele, que tem problemas com o pai inválido por causa do trabalho nas Indústrias Jutul que lhe negam indenização. Sua doçura abala o coração de Fjor, fazendo-o questionar suas lealdades, tendo ele um ótimo diálogo com Vidar, que pega um machado e quer matar Magne porquê “- Ele é um deus, um inimigo! Antes deles os humanos nos veneravam!”ao que o filho replica: “É, mas agora você dirige um volvo e passa a noite jogado no sofá vendo filmes americanos comendo doces!” lembrando alguns dos momentos de questionamento entre Lex e Lionel Luthor de Smallville.

Isolde (IlvaTheron Bjorkas) a ativista cuja morte desencadeia a série de eventos dramáticos...

Os valores de produção trabalham bem com o pequeno orçamento. Os figurinos de Tanja Eleonora Spang (Friheden) cria o contraste entre o mundo comum e ordinário dos mortais, mostrando a elegância dos Vidar (em especial Ran e Saxa) e os trajes convencionais, comprados em lojas, de Turid, Magne, Erik, Gry, indo na mesma direção o desenho de produção de Mette Rio (Happy Ending) nas residências simples dos Seier de Gry, Isolde, ou as dependências da escola, a lanchonete e o hospital da cidade, e de forma sutil o mundo mágico na mansão Jotunhein(lar dos gigantes do gelo na mitologia nórdica) dos Vidar com escadas sem corrimão, armas antigas decorando as paredes, móveis de madeira entalhada e uma mesa feita de um tronco sólido onde há uma cena definidora quando Ran tem uma queda de braço com Magne (que ela embebedou com hidromel) e a edição de Elin Pröjts (Friheden) Lars Wissing (Caçadora de Gigantes) e Mogens Hagedorn (Anna Pihl) dão o tom da revelação quando ele vê a face real da diretora, e depois, se vê no espelho como um guerreiro nórdico, sendo o clima sublinhado pela trilha musical de Halfdan E (Um Homem Um Tanto Gentil) colabora com o equilíbrio entre essas realidades, indo da música clássica de Wagner ao techno moderno do M83.

"-Esse Mjolnir pode ser comprado no Wall-Mart, mas servirá!!!"

 A primeira temporada se compõe de seis episódios de 45 minutos que apresentam o pano de fundo, devendo desenvolver mais os personagens e suas motivações na temporada seguinte, o que decepcionará alguns espectadores casuais, mais afeitos a uma ação direta e da pirotecnia explícita, mas que apresenta um potencial futuro. Esperemos que uma eventual segunda temporada (e com um maior orçamento para os efeitos visuais) permitam à série dar maiores vôos imaginativos nesta saga.


"-Chega de adereços!!! Eu quero um CGI  responsa!!!"
← Anterior Proxima → Página inicial

Postagens mais visitadas

Pesquisar este blog